Por que tanta doação?

Vivemos numa época onde está difícil escapar de algum tipo de pedido. Pede-se de tudo. E tudo tem uma causa. Ou uma possível causa. Campanhas afloram todos os dias. Qualquer evento tem um pedágio, normalmente um quilo de alimento que será destinado etc, etc, etc. E então vem a pergunta: o que os governantes estão fazendo com o nosso dinheiro, extorquido pelos impostos e taxas?

Aos exemplos. Todo começo de ano tem campanha do agasalho. Recolhe-se roupas e calçados a serem doados aos necessitados. Todo final de ano tem campanha de brinquedo, campanha de natal. Brinquedos que serão distribuídos às crianças da periferia. Preferencialmente por vereadores, gente de sociedades amigos de bairros, aspirantes a políticos.

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Há anos a TV Globo promove o Criança Esperança, quando arrecada dinheiro em nome do Unicef. O SBT dá o troco com o Teleton. Outras campanhas do tipo se espalham por todo o País. País que tem o maior número de ONGs do mundo, agindo sob qualquer pretexto. Ora é para dar assitência a crianças ora para dar assistência a idosos.

Então começam as controvérsias. Os governos – federal, estaduais e municipais – arrecadam muito dinheiro com impostos. Muitos impostos, por sinal, cobrados com efeito cascata. Esse dinheiro vai para um caixa, e daí para a gastança. Gasta-se muito, e em alguns casos mais do que se arrecada. É o chamado déficit. Mas onde se gasta?

Deputados e senadores, por exemplo, não abrem mão de seus privilégios, como carro, motorista, segurança, assessores, passagens aéreas, telefone, plano de saúde. Coisas impensáveis até para executivos de multinacionais. Quando cobrados, ou fogem ou buscam um jeito de fazer economia, achatando salários e sucateando o INSS, as escolas, os hospitais.

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 A desculpa para a desgraça é a crise. Mas crise existe no mundo inteiro. Mordomias e gastança só por aqui. Por aqui tudo serve para justificar a incompetência e a ganância. O aço da China, a laranja da Califórnia, o celular chinês, o petróleo da Arábia, o trigo da Argentina e até o vinho chileno. Alguém sempre é culpado pela inflação e pelo desemprego.

Não que se deva banir a solidariedade. Solidariedade é algo que existe desde os primórdios da civilização. Mas está havendo exagero. E com o exagero, com doações e campanhas em pencas, cria-se também uma clientela fiel aos benefícios. Quem tem pouca vocação para o trabalho encontra nas ONGs, igrejas e fundos sociais uma oportunidade de ouro para a vadiagem.

Cria-se também outra oportunidade. A chance de muitos se promoverem à custa dos miseráveis ou vagabundos. Não faltam políticos ou candidatos a isso apadrinhando caridosas iniciativas. No Nordeste, é prática a distribuição de enxadas em épocas de eleição. No resto do País não é diferente. Em vez de enxadas, comida, agasalho, brinquedo, calçado, cesta básica.

Critica-se Cabral em sua chegada ao Brasil. Cabral trocou ferramentas por madeira com os índios. Mas pelo menos facilitou o trabalho indígena. Cabral não deu espelhos e apitos. Deu enxadas, picaretas e machados. Mesmo sem saber, ensinou um pouco de trabalho aos índios. Talvez esteja na hora de promovermos a campanha da enxada. Não tem contraindicação. A não ser um pouco de cansaço e alguns calos.

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