Quando as palavras tocam os dedos

Não sei explicar exatamente como se dá o processo de criação de um texto. Ora parto de um assunto que corrói, ora anoto o assunto que quero abordar. Ora deixo as palavras tocarem os dedos.  

No início era assim, deixava que as palavras tomassem forma sem me preocupar com as pontuações, com os encontros vocálicos e consonantais. Não me importava se havia descoberto os ditongos e hiatos, até mesmo as acentuações gráficas, as oxítonas, as paroxítonas e as proparoxítonas. A minha relação com as palavras era assim, ingênuas.  

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Lembro-me de brigar com a concordância, ora por preguiça, ou por licença poética. Fazia tão mais sentido concordar com a palavra mais próxima e ignorar que o verbo geralmente deve concordar com o núcleo do sujeito. Mas não devo negar que sempre tive uma aptidão por sujeito desinencial, indeterminados e inexistentes. Enfim, depois de tanto tempo devo admitir que as águas turvas também se acomodam.  

A língua portuguesa é linda, rica e nunca finda.  

Hoje adjetivos que ligam a qualidade dos meus substantivos acompanham meus advérbios de tempo (agora), lugar (aqui), modo (tranquilamente) e intensidade (demais!). Minha estilística transita nos verbos de modo e tempo, mas sempre preferi o subjuntivo, porque me parece mais reflexivo, “se acontecesse”, “se eu escrevesse”, enfim, gosto do pretérito imperfeito, porque considero que sempre estou aberto à circunstância.   

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Assim eu vivo: entre os verbos irregulares e os abundantes. Ora futuro (infinitivo), ora no passado (particípio) e dificilmente no presente — porque odeio gerúndio. Estudando, bebendo, dormindo, etcetera, etcetera.  

Claro que ter conhecimento da análise morfológica ou sintaxe faz com que consiga pegar o interlocutor de jeito. Essa conexão só acontece quando eu, aqui, tento tirar da cartola um assunto bobo neste domingo que parece fim de feriado; e você, aí, se interessa por esse assunto que me escorre dos dedos.  

As conexões geralmente acontecem quando as sensibilidades se encontram num domingo qualquer, numa segunda-feira qualquer. Você e eu, dois pronomes pessoais, que se cruzaram nas redes sociais. Você e eu que, talvez, tenha um verbo de ligação. Você e eu que, às vezes, para expressar algo precisa de um verbo transitivo indireto.  

Mas gosto de pensar que qualquer hora dessas a gente se esbarre nos verbos (intransitivos), que são os contêm o sentido completo. Se calhar, é dessa forma que as palavras tocam os dedos.  

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