A Justiça está querendo explicações da Igreja Universal sobre vasectomias. Explicando melhor – a Universal estaria obrigando seus pastores a se tornarem estéreis por meio de vasectomia. Parece estar havendo uma espécie de intromissão indevida nesse caso. Seria o mesmo que a Justiça questionar o celibato dos padres católicos.
Primeiro. A Universal, em que pesem seus métodos quase criminosos de conseguir dinheiro, não obriga ninguém a fazer vasectomia. Mesmo que obrigasse, poderia ser facilmente contestada, porque ninguém é obrigado a nada. Nem que houvesse um jeito forçado de se fazer isso – médico nenhum faria uma cirurgia do tipo em alguém sob ameaça.
Segundo. A Universal poderia ser facilmente enganada por pastores tão espertos quanto seu chefe – bastaria apresentar um atestado de que houve tal cirurgia. Nos dias de hoje não é tão difícil um atestado médico. Para muitos médicos, mais importante que a consulta é o pagamento. Mesmo método da Universal.
E por último, se é uma condição da igreja a de alguém estar vasectomizado para se tornar pastor, entra quem quer. Ninguém é obrigado, se bem que a boca é boa. O caso tem tudo a se tornar mais um dos muitos que só chamam a atenção do público, coloca promotores e juízes na mídia e termina em nada.
Bem mais lógico seria a Justiça ir a fundo na questão de determinadas igrejas, como a Universal e a Mundial. Dez minutos de pregação de seus pastores já renderiam bons processos, tamanha a voracidade com que avançam nas finanças dos fiéis. O que se vende nessas pregações na TV é algo irreal. E isso é iludir a fé pública. Isso é estelionato.
Melhor que discutir a vasectomia – obrigatória ou não – da Universal, seria a Justiça mandar apurar a contabilidade dos templos e dos pastores. Melhor ainda seria obrigar o governo cobrar imposto dessa gente. Se igreja (isso serve para todas) pode ter emissoras de rádio e TV, carros, imóveis, nada mais justo que paguem impostos.
O imposto sempre é X da questão. Um levantamento feito recentemente pela Folha de São Paulo mostrou que é fácil abrir uma igreja. Gasta-se R$ 418 em papelada de cartório e pronto. Com o CNPJ abençoado, deixa-se de pagar quase tudo e a comprar quase tudo com descontos divinos.
É um bom negócio. Estima-se que são abertas 14 mil igrejas por ano aqui no Brasil. E haja criatividade para lhes dar nomes. Alguns, só de passagem: Associação Evangélica Fiel até debaixo d´agua, Congregação Cristã dos fiéis vencedores salvos da Macumba, Igreja Bailarinas da Valsa Divina, Igreja Batista das Andorinhas de Cristo e por aí vai.
Para abrir uma Igreja, basta registrar a ata de abertura em cartório e depois pedir o CNPJ na Receita Federal. O registro de entidades religiosas é um dos maiores do país, superando condomínios, comércios, clínicas, restaurantes e drogarias. O número de registro de igrejas fica atrás apenas dos de associações, outra praga da modernidade.
O melhor, por ora, é deixar a vasectomia da Universal em paz. Quando a onda passar, quem sabe alguém resolve apurar a esterilização de mulheres pastoras. Ou quem sabe alguém tenha coragem de abrir a caixa preta dessas igrejas e pastores. Ou isso não interessa a determinados políticos? Só Edir Macedo pra responder.





