Nos anos 1920 e 1930, os jornais americanos se esbaldavam em manchetes sensacionalistas, e fotos mais ainda, sobre as execuções da Máfia. Em Chicago, Al Capone, o mais conhecido dos chefões, fornecia material quase que diariamente aos jornais. Eram execuções em grupo – Al Capone não brincava, não se contentava em matar o líder rival, e sim o bando todo.
Quase cem anos depois, vivemos situação idêntica. Nos comovemos com o ataque ao jornal Charles Hebdo em Paris, feito por extremistas. Nos comovemos com as centenas de civis que morrem nas guerras fatricidas do Oriente Médio. E damos as costas para outras guerras, muito próximas a todos nós.
Na semana passada, por exemplo, oito pessoas foram executadas dentro da sede da torcida de um time de futebol na Capital. Torcida e time nada têm a ver com a história. O motivo da execução, está claro, é disputa por pontos de drogas perto do Ceagesp.
O caso teve repercussão mundial. Mas nós nos limitamos a ver o noticiário e pronto. Ninguém exigiu providências. Ninguém foi às ruas protestar contra a barbárie. Quem morreu não era exemplo – alguns tinham passagens pela Polícia por tráfico. Mas não justifica esse tipo de coisa.
Nos morros cariocas, todos os dias acontecem execuções, resultado da briga entre quadrilhas. Todo mundo promete acabar com isso. Só promete. Na prática, alguns até incentivam – como o tráfico domina essas comunidades, políticos usam a “autoridade” do bandido para exigir votos.
Ninguém entendia, nos anos 1920 e 1930, época de lei seca e repressão pra valer, como a turma de Al Capone conseguia metralhadoras Thompson, as melhores armas da época. Hoje também não entendemos como as quadrilhas conseguem fuzis AR 15 ou AK 47. Presumimos, mas não entendemos.
Nada temos de diferente da Chicago antiga. Até temos – a barbárie aumentou, se sofisticou, se profissionalizou. Alguns chefões do tráfico terceirizam a tarefa de matar a ex-policiais, expulsos por corrupção, ou a quadrilhas menores. Perto dessa gente, Al Capone fica parecendo uma freira.




