Quase sempre que há referência ao termo coronel, remete-se à figura do militar zeloso, cumpridor de seu dever, comandante de tropa – um posto abaixo de general, no caso do Exército (Marinha e Aeronáutica têm outras nomenclaturas). Mas remete-se também à grotesca figura de alguém mandão, prepotente, ditador de pequenas regiões, notadamente no sertão, mais ainda no Nordeste.
São coronéis sem farda e sem patente. Avocaram para si o título como símbolo de poder e de riqueza. São eles que exploram os mais fracos, os mais humildes. Costumam ditar regras na política de suas terras e fazem-nas ser obedecidas a qualquer custo – muitas vezes à bala. Acostumados aos améns, irritam-se quando contrariados.
Não ouvem – a não ser outros coronéis. Não pensam – têm suas idéias e objetivos pré-concebidos desde a infância, quando são mimados ao extremo. Quando crescem, fazem o que bem entendem, desrespeitando regras de convívio social, cientes da impunidade e do poder, dinheiro e prestígio de pai, tios ou avôs. Em seus domínios, são leões com garras e dentes à mostra. Fora deles, não passam de gatos de armazém.
É dos coronéis a prática de iniciação sexual dos filhos em bordéis de alguma categoria, onde alguma cafetina pode lhes dever favor. Também é de filhos de coronéis a prática de iniciação sexual com serviçais da casa ou do engenho de cana-de-açúcar. Se a serviçal for velha demais, não despertar o interesse projetado, servem suas filhas, não importando a idade. Sem consentimento, vale o estupro.
Coronéis assim não aceitam contrariedade. Nâo discutem – na falta de argumentos, impõem sua vontade pela força ou pelo tiro. Protegem os seus, acolhendo gente do mesmo sangue, da família, não levando em conta se sabem ou não tocar o negócio pretendido. Se lixam para as cidades onde moram, para seus habitantes, para seus serviços. Gostam mesmo é de poder a qualquer custo e de dinheiro.
Têm consciência que ficarão velhos e que morrerão. Fisicamente. Mas tratam de perpetuar sua memória mantendo intacto o sobrenome familiar. E tratam de preparar seus descendentes para serem tão ignorantes, prepotentes, ávidos por dinheiro e poder, abusados tanto quanto eles o são. Os herdeiros aprendem depressa.
Coronéis não têm amigos, a não ser outros coronéis. Têm jagunços, sempre prontos a cumprir cegamente suas ordens. Ou raparigas, prontas a atender seus desejos. Os herdeiros também aprendem a viver assim, rodeados de jagunços, e mimados que são, desandam a dizer e a fazer asneiras.
Esse tipo de coronelismo vem de há muito tempo. Das capitanias hereditárias, quando o governo central precisava da mão forte de alguém sem escrúpulos para impor sua colonização e sua vontade. Compensava os que assim agiam com a generosidade dos cofres públicos, com concessão de terras e títulos de nobreza. Assim nasceram esses coronéis.
Desde o surgimento, perceberam que era fácil mamar nas tetas do governo. Nunca mais as largaram. Com a Independência, em 1822, mudaram rapidamente de lado, e continuaram mamando. Com a proclamação da República, em 1889, esses coronéis tornaram-se republicanos – dormiram monarquistas, acordaram republicanos.
Vieram ditaduras, resultantes de golpes – a própria República foi um golpe. Mudaram governos, e o tempo ensinou a esses coronéis como expandir seus negócios, sua influência e seu prestígio. Com a tecnologia, com a modernidade, com o livre pensamento, seria para ser um casta extinta. Infelizmente ainda há coronéis e aprendizes. Alguns, perto demais.





