A crise hídrica em São Paulo volta a preocupar diante da queda contínua dos níveis dos reservatórios, especialmente do Sistema Cantareira, mesmo em um período marcado por chuvas de verão. O cenário evidencia que o problema não se resume à falta pontual de precipitação, mas envolve fatores estruturais, ambientais e climáticos que comprometem a reposição da água. Robson Costa, engenheiro ambiental e professor, alerta que a dependência direta das chuvas nas bacias hidrográficas, somada à degradação ambiental e às mudanças climáticas, torna o abastecimento cada vez mais vulnerável.
Segundo o professor, a linha de alerta técnico já foi ultrapassada, independentemente do percentual exato registrado nos reservatórios. “A dependência das chuvas, que podem ou não ocorrer nas diversas bacias hidrográficas, não garante a reposição do recurso hídrico. Mesmo com tempestades isoladas, se não chover onde a água é captada, o nível das represas praticamente não se altera. O solo excessivamente seco dificulta a infiltração da água e a recomposição do lençol freático, fundamental para manter o fluxo dos rios em períodos de estiagem”, explica.
Medidas como a redução da pressão na rede de abastecimento, frequentemente sentidas pela população, fazem parte da estratégia para minimizar perdas, mas não resolvem o problema sozinhas. “A diminuição da pressão afeta todos, mas é necessária para reduzir os vazamentos na rede de distribuição. Quanto maior a pressão, maior o volume de água perdido, e isso é responsabilidade das concessionárias. Ações complementares, como a instalação de redutores de pressão e a pesquisa de vazamentos internos em residências e redes, deveriam ser ampliadas para tornar a gestão mais eficiente”, afirma o engenheiro.
Entre os principais fatores ambientais que contribuem para a diminuição dos níveis das represas estão as mudanças climáticas, o desmatamento de matas ciliares e a degradação de nascentes. “O aumento da temperatura média do planeta altera os padrões de chuva e intensifica a evaporação da água armazenada. Além disso, a ausência de vegetação ao redor dos rios provoca assoreamento e reduz a infiltração da água no solo, comprometendo o abastecimento dos lençóis freáticos”, diz Costa.
O cenário climático de 2026 adiciona um novo elemento de atenção. De acordo com o especialista, o país vive um período de transição entre o enfraquecimento do La Niña e a possível chegada do El Niño ainda neste ano. “Fevereiro tende a ser um mês de neutralidade climática, com chuvas frequentes, porém irregulares. Os modelos indicam que o El Niño pode se configurar entre maio e junho, ganhando força no segundo semestre”, afirma.
Para ele, apesar do momento atual ser relativamente positivo para a recuperação dos reservatórios, é fundamental que a população compreenda a complexidade do sistema. “Muita gente não sabe a distância que a água percorre até chegar à torneira. Parte da água que abastece São Paulo vem de outros estados, como Minas Gerais, o que reforça a necessidade de planejamento, preservação ambiental e consumo consciente”, conclui.




