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quarta-feira, 14 outubro, 2026

Editorial: As eternas pirâmides

Prática condenada e tida como crime, as pirâmides financeiras já enriqueceram alguns poucos espertalhões e empobreceram e desiludiram a maioria dos crédulos e esperançosos que ouviram suas supostas virtudes. Como muita gente está vacinada contra esse tipo de golpe, as pirâmides mudaram de forma. Foram maquiadas. Ganharam ar de honestidade. Mas continuam sendo pirâmides.
Estão hoje embutidas em práticas comerciais consideradas lícitas, como venda de produtos de beleza, substâncias quase milagrosas de emagrecimento, produtos de limpeza e uma série de artigos que têm como principal finalidade deixar dúvidas sobre sua eficácia. E alguém que se interessa pelo negócio desembolsa dinheiro para quem está acima, na hierarquia da pirâmide, ganhar sempre.
Despindo essas pirâmides dos eufemismos que lhe são peculiares, funcionam mais ou menos assim: você é trouxa e me deu dinheiro; agora arruma outra trouxa para recuperar o dinheiro que me deu e ainda ganhar um pouco em cima, porque parte do que você vai receber é meu. Quanto mais otários estiverem abaixo, mais dinheiro vai entrar para quem estiver em cima.
As pirâmides são criadas – e tem fiéis seguidores – porque existem princípios no mundo que são imutáveis. O primeiro: para alguém ser folgado, há alguém trabalhando em seu lugar. O segundo: todos os dias nascem um esperto e um otário, e quando um dia, no futuro, se encontrarem, vai dar negócio.
Há ainda a esperança e o excesso de fé. Em situações de desespero, de necessidade, as pessoas acreditam em tudo – no caso das pirâmides, que são sua chance de ganhar muito dinheiro. Por mais que acreditem, a fé não transforma miséria em fortuna. Alquimistas tentam há séculos transformar chumbo em ouro. Até lhes dão essa aparência, mas o chumbo continua sendo chumbo.
Existe também o envolvimento emocional. Numa dessas reuniões de pirâmides, pessoas humildes, simples, acostumadas a serem tratadas com desdém, foram recebidas por elegantes senhoras e senhores engravatados, a quem chamavam de doutor. Esses crédulos ouviram histórias de sucesso bem parecidas das contadas em alguns templos ditos evangélicos.
O mau pastor explora a fé alheia com a possibilidade do milagre. Pode ser a cura do incurável, a fortuna rápida, a posição social ou até mesmo um amor impossível. Calma! Impossível para os simples mortais, mas quem é íntimo do Senhor consegue tudo.
A pirâmide não tem o mau pastor. Tem o bom executivo, que da mesma forma bíblica como se anuncia a riqueza nos templos, prevê a fortuna aos interessados nos produtos da pirâmide. Numa outra reunião de pirâmide – embora sua fachada fosse comercial – havia gente contando histórias. Parecia depoimento de gente de sucesso em igreja picareta.
Um dos contadores de história afirmou que havia chegado num ponto de não ter dinheiro para tomar o ônibus, que fazia uma só refeição diária para economizar, e que hoje, dois meses após entrar no negócio, já estava com um carro do ano – e de luxo – escritório montado e almoçando e jantando em churrascarias e outros regabofes. De quebra, estava namorando a mulher mais desejada do bairro.
Por mais que se alerte, por mais que se explique, por mais que se esclareça, as pirâmides vão continuar sendo montadas. Algumas ficarão gigantes, com seus cabeças ricos, sustentados por multidão de otários. Outras serão menores, e aí dependerão da suposta e pretensa qualidade de seus produtos para crescer. Nada a ver com 138 pirâmides egípcias – essas sim, de verdade.

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