O câncer de cabeça e pescoço ainda é diagnosticado, na maioria das vezes, quando a doença já está em estágio avançado. O principal motivo é que seus primeiros sinais costumam ser confundidos com problemas comuns, como aftas, dor de garganta, refluxo ou alterações dentárias, fazendo com que muitos pacientes demorem a procurar atendimento. É justamente para chamar a atenção para esses sintomas e estimular o diagnóstico precoce que o Julho Verde reforça a importância da conscientização sobre a doença.
Feridas na boca que não cicatrizam, manchas persistentes, caroços na cavidade oral ou no pescoço, rouquidão prolongada, dificuldade para engolir, sangramentos sem causa aparente, além de emagrecimento inexplicado e dor contínua na garganta ou na face estão entre os principais sinais de alerta. Embora possam estar relacionados a condições benignas, alterações que persistem por mais de duas ou três semanas devem ser avaliadas por um especialista.
O câncer de cabeça e pescoço reúne tumores que acometem estruturas como cavidade oral, faringe, laringe, tireoide e regiões associadas. Em muitos casos, a doença evolui de forma silenciosa, o que torna o diagnóstico precoce determinante para aumentar as chances de cura e reduzir o impacto do tratamento.
Segundo estimativas do Ministério da Saúde, 40 mil novos casos são registrados anualmente no Brasil. A maior incidência ocorre entre homens acima dos 40 anos, embora mulheres também sejam afetadas. O cenário preocupa porque entre 70% e 80% dos diagnósticos acontecem quando a doença já está avançada, exigindo tratamentos mais complexos e diminuindo significativamente as possibilidades de cura.
Laura D’Ottaviano, cirurgiã-dentista bucomaxilofacial do Vera Cruz Hospital, em Campinas, explica que a observação da cavidade oral pode contribuir para identificar alterações ainda nas fases iniciais da doença. Segundo ela, gengivas, língua e mucosas devem apresentar coloração rosada. Manchas esbranquiçadas, avermelhadas, arroxeadas ou amareladas, assim como assimetrias ou aumento de volume na face e na boca, merecem investigação.
“Lesões com aspecto de espinhas, verrugas, bolhinhas ou áreas endurecidas, com ou sem dor, além de secreções, não devem ser ignoradas. Machucados recorrentes durante a mastigação, dentes fraturados e próteses mal adaptadas também são sinais importantes”, afirma. A especialista acrescenta que dores persistentes na boca ou na face também podem indicar alterações que precisam de avaliação.
Laura lembra que a mucosa oral possui grande capacidade de cicatrização e que pequenas lesões, como aftas, normalmente desaparecem em até duas semanas. “Quando uma lesão ultrapassa esse período, especialmente após cerca de 15 dias sem apresentar melhora, ela precisa ser investigada por um cirurgião-dentista”, orienta. Manchas, nódulos e sangramentos, mesmo sem dor, também exigem atenção, já que muitas lesões evoluem de forma silenciosa.
Ela ressalta ainda que consultas odontológicas periódicas, em geral a cada seis meses, são importantes mesmo para quem não apresenta sintomas, pois aumentam as chances de detectar alterações precocemente.
O médico oncologista do Vera Cruz Oncologia e especialista em câncer de cabeça e pescoço, David Cunha, reforça que campanhas como o Julho Verde têm papel importante para ampliar o conhecimento da população sobre a doença. “Na maioria das vezes, o diagnóstico ocorre em estágios avançados, o que reduz as chances de cura e torna o tratamento mais agressivo”, afirma.
Entre os principais fatores de risco estão o tabagismo, o consumo excessivo de álcool e a infecção pelo HPV, especialmente relacionada ao câncer de orofaringe, que acomete a base da língua e as amígdalas.
Quando identificado precocemente, o câncer de cabeça e pescoço pode alcançar taxas de cura próximas de 90%, muitas vezes com tratamentos menos invasivos. Nos casos avançados, entretanto, costuma ser necessária a combinação de cirurgia, radioterapia e quimioterapia, aumentando os efeitos colaterais e o impacto sobre a qualidade de vida. “Mais do que salvar vidas, o diagnóstico precoce preserva funções essenciais como a fala, a deglutição e a alimentação”, conclui o especialista.




