Um estudo publicado no Journal of Theoretical Educational Science encontrou uma tendência de queda nos escores de inteligência de 2.192 crianças entre 5,5 e 7 anos, avaliadas na Turquia entre 2016 e 2021. A média do índice geral de inteligência caiu de 103,67 para 97,67 pontos, enquanto o índice não verbal passou de 103,91 para 97,19. A redução mais acentuada ocorreu entre 2020 e 2021.
Os resultados reforçam o debate sobre o chamado efeito anti-Flynn, caracterizado pela estabilização ou redução dos escores de QI observada em determinadas populações depois de décadas em que ocorreu o fenômeno oposto, conhecido como efeito Flynn. Os autores relacionam parte da queda observada aos efeitos ambientais e educacionais da pandemia, embora reconheçam que outros fatores precisam ser investigados.
Para o neurocientista e pesquisador Fabiano de Abreu Agrela, especialista em inteligência, QI e genômica, presidente da sociedade de alto QI ISI Society e diretor internacional da IIS Society, os dados devem ser observados dentro de uma mudança ambiental mais ampla.
“Talvez não estejamos apenas diante de fatores que prejudicam a inteligência. Podemos também estar perdendo os estímulos que impulsionavam seu desenvolvimento. O cérebro é plástico, mas essa plasticidade precisa ser utilizada. Menos leitura profunda, menor concentração sustentada, menos resolução de problemas e menor exigência de memória de trabalho podem representar um aproveitamento neuroplástico inferior ao potencial disponível”, afirma.
Fabiano também chama atenção para a possível participação de mecanismos epigenéticos, capazes de modificar a expressão gênica em resposta a fatores como estresse, sono, nutrição, aprendizagem e ambiente. Segundo ele, isso não significa alteração rápida do genoma, mas mudanças na forma como determinadas predisposições biológicas podem ser expressas. O estudo analisado, porém, não avaliou diretamente marcadores epigenéticos.
Para o pesquisador, as evidências do efeito anti-Flynn já justificam preocupação científica. “Não podemos dizer que um único estudo prova uma queda universal da inteligência, mas também não podemos ignorar que existem pesquisas mostrando redução de escores cognitivos. O ponto agora é compreender por que isso está acontecendo e se estamos oferecendo às novas gerações um ambiente capaz de desenvolver todo o potencial cognitivo que possuem.”





