Com um alerta de que escândalos recentes podem colar no Brasil a pecha de ser um “exportador de corrupção”, a Transparência Internacional (TI) colocou o país em 79º lugar em um ranking da percepção das práticas ilícitas. De 2015 para 2016, o Brasil perdeu três posições na lista de 176 países. Quanto pior a posição do país, maior a percepção da corrupção.
De acordo com a entidade, os esquemas que vêm sendo revelados nos últimos anos, sobretudo com a operação Lava Jato, contribuíram para a má impressão em relação ao país. No entanto, os esforços no combate à corrupção também vêm sendo reconhecidos e podem levar à melhoria da situação brasileira.
“Isso acabou afetando a imagem e a percepção da corrupção no Brasil, o que é normal acontecer quando um país começa a desvendar esses grandes esquemas, mas, ao mesmo tempo, pode ser um sinal de mudança, que o país começou a confrontar o problema”, afirma o representante da Transparência Internacional no Brasil, Bruno Brandão.
Para ele, o Brasil tem demonstrado que “está levando a sério” o combate à corrupção com os recentes exemplos da força-tarefa da Lava Jato e de outras operações, como a Zelotes e a Acrônimo. O levantamento feito anualmente pela ONG leva em conta um compilado de indicadores de 12 instituições, incluindo o Banco Mundial, que passam por um tratamento estatístico e geram uma pontuação a cada país.
Neste ano, o Brasil ficou com 40 pontos (a escala vai de 0, quando há corrupção extrema, a 100, quando há muita transparência), empatado com China, Índia e Bielo-Rússia. A Dinamarca ficou em primeiro lugar, empatada com a Nova Zelândia, como países em que a população tem menor percepção de que seus servidores públicos e políticos são corruptos. As nações mais transparentes registraram um índice de 90.
Em 2015, o Brasil havia obtido 38 pontos, mas, segundo Brandão, essa variação está dentro de margem de erro estatística, indicando que a percepção sobre a corrupção no país se manteve estável e que, de 2015 para 2016, outros países podem ter conseguido um desempenho melhor e, por isso, superaram o Brasil na posição do ranking.
Críticas. Em sua avaliação, a Transparência Internacional elogia a Lava Jato, mas critica o que chama de “espetacularização” por parte do Ministério Público Federal. A entidade cita o caso das gravações vazadas entre o ex-presidente Lula e a então presidente Dilma Rousseff (PT) e afirma que isso gera resistências à ação de combate à corrupção.
Além disso, a Transparência afirma que a mudança de governo não contribuiu com a política, ao lembrar que a gestão de Michel Temer abrigou diversos investigados em seus ministérios. Outra crítica da ONG foi ao Congresso que, segundo a avaliação da entidade, “desfigurou o pacote anticorrupção”.
Supremo
Plenário. A Transparência Internacional cita a decisão do STF de manter o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), no cargo, o que considera como “cautela” e “um passo atrás”.

DESIGUALDADE
Escândalos dão gás ao populismo
A ONG anticorrupção Transparência Internacional (TI) alertou nessa quarta-feira (25) que níveis crescentes de corrupção e desigualdade social geram um contexto propício para a ascensão de líderes populistas, como o recém-empossado presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Durante 2016 vimos que, em todo o mundo, a corrupção sistêmica e a desigualdade social se reforçam reciprocamente, e isso provoca decepção nas pessoas em relação à classe política”, diz um comunicado da ONG sobre a divulgação de seu relatório anual Índice de Percepção da Corrupção.
Segundo a TI, líderes populistas têm conseguido explorar o desencanto das pessoas com “o sistema corrupto” para angariar apoio de eleitores, apresentando a si mesmos como a única saída para acabar com corrupção. “De fato, Trump e muitos outros líderes populistas frequentemente traçam conexões entre uma ‘elite corrupta’ interessada apenas em enriquecer (…) e a marginalização das ‘pessoas trabalhadoras’”, diz a ONG.
“Apesar disso, o histórico de líderes populistas em resolver esse problema é lamentável; eles usam a mensagem de corrupção-desigualdade para conquistar apoiadores, mas não têm a intenção de combater o problema seriamente. A questão é: esses eleitores estão apoiando reais defensores de propostas anticorrupção ou dando sustentação a vigaristas?”, questiona a entidade.
Ao todo, 69% dos 176 países que aparecem no ranking ficaram com uma pontuação abaixo de 50.
DOIS LADOS
“O alcance internacional dos esquemas e a atuação no exterior das empreiteiras brasileiras ameaçam colar no país a pecha de “exportador de corrupção”. Por outro lado, o próprio desvelamento desses esquemas (por meio da operação Lava Jato) é uma indicação do esforço e dos êxitos da luta contra a corrupção no Brasil.” Transparência Internacional





