Guaranésia, cidade vizinha de Mococa, em Minas, tem muito a se orgulhar de seu filho mais ilustre, Walmor Barbosa Martins. Mais jundiaiense que nunca – chegou à cidade com quatro anos, fez uma carreira invejável como advogado e político, deixando suas marcas com obras e frases que ainda são lembradas por todos.
Mais novo de quatro irmãos – Wilson Martins, jornalista, já falecido, Wellington, advogado, também falecido, e Sônia, professora – Walmor tem três filhos: Cristina, Walmor Júnior e Luciana, esta última trabalhando na MTV americana, em Atlanta.
Como advogado (formado pela PUC), foi o autor do maior número de processos contra a Fepasa. E como advogado, critica as aberrações jurídicas vigentes no país. Mas destacou-se como político. Em 1959, mesmo ano em que se casou com Elena Cristina, foi eleito vereador – o primeiro a passar da barreira dos mil votos. Naquele ano, o segundo colocado foi José Pedro Raymundo.
Começou a deixar marcas nessa época – ele é um dos autores do primeiro Plano Diretor de Jundiaí, criado em parceria com outros vereadores. E “incendiava” a tribuna nos debates, ora com Tarcísio, ora com Antonio Galdino.
Quatro anos depois, foi reeleito. Época diferente da atual, onde vereador não tinha salário. E onde havia na Câmara excelentes oradores, como Tarcísio Germano de Lemos, Antonio Galdino, José Godoy Ferraz, Carlos Gomes Ribeiro, Carlos Franchi – só para citar alguns.
“A política era mais definida, havia posicionamento – diz Walmor. Você sabia quem era quem, não havia gente em cima do muro, e o debate era intenso”. Em 1968 houve eleições municipais. Era uma época de mudanças, com a juventude se rebelando no mundo inteiro e exigindo mudanças. Walmor estava com 38 anos, politicamente um jovem e tanto.
Disputou a eleição para prefeito, gastou sola de sapato, usou sua qualidade de orador, juntamente com Tarcísio Germano de Lemos, candidato a vice com ele e outro bom orador. A eleição parecia perdida quando começou a apuração, mas quando foram apuradas as urnas do pessoal que votava no Parque Comendador Carbonari (Festa da Uva), Walmor ganhou e se tornou prefeito.
Eram as urnas do pessoal mais novo, da juventude. Em quatro anos, tratou de colocar pra funcionar a Faculdade de Medicina de Jundiaí (a primeira turma é de 1969), terminou o Fórum atual, construiu o prédio da Câmara, instalou o Pronto Socorro Municipal no Hospital São Vicente, fez o viaduto da avenida Jundiaí, colocou a Junta do Trabalho num prédio próprio, ao lado do Fórum, e trouxe os Correios para a rua Barão.
Em 1971, Jundiaí recebeu pela primeira vez a visita de um presidente da República. O Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) de Jundiaí era o mais eficiente do país, e o então presidente Médici veio à cidade de Walmor para entregar mais de oito mil diplomas. De quebra, Médici inaugurou a Feira da Amizade daquele ano.
“Na época tínhamos um carteiro – conta ele – e fizemos um acordo com os Correios. Instalamos o serviço na Barão e os Correios nos deram 40 carteiros”. Terminado o mandato, voltou à advocacia. Em 1988, voltou a disputar a Prefeitura e ganhou. “Foi uma questão de dedicação à cidade, diz ele. Eu advogava para seis indústrias”.
Prefeito pela segunda vez, tratou de trabalhar. Construiu a avenida dos Ferroviários, comprou o prédio da então falida Argos Industrial, instalou emissários de esgoto às margens de todos os rios e córregos (canalizou parte deles), e trouxe para Jundiaí a maior fábrica do mundo da Coca-Cola. Em oito anos, foi o prefeito que construiu o maior número de escolas em Jundiaí.
Longe da política – nem tão longe – Walmor diz que o presidente Castello Branco foi o maior prefeito do Brasil. “Até então, os prefeitos viviam de pires na mão, pois as cidades dependiam do governo estadual para tudo. Castello criou o primeiro Código Tributário Brasileiro em 1967, que deu autonomia financeira aos municípios”, diz ele.
Sobre política atual, tem opiniões bem definidas: “Somos uma sociedade hedonista, tudo está abandonado. Houve erosão de princípios, de estilo de vida, dos princípios de honestidade”. Para ele, o maior mal do país é a reeleição. Mas cita outros males. “A figura de suplente de senador é um absurdo jurídico – diz ele. Como que alguém que não recebe um voto sequer pode tomar posse?”
Lamenta a situação do Hospital São Vicente, mas isenta o atual prefeito (Pedro Bigardi) de culpa. “Fico condoído vem ver sua lotação, mas basta prestar atenção à sua volta e ver de onde vem tanto paciente – é só olhar as placas dos carros”.
Suas críticas ao sistema político atual, e também aos políticos, não são nada veladas. “A política conseguiu acabar com a Saúde e com a Educação”. Elogia o papel da imprensa: “Ainda bem que o Brasil tem uma imprensa vigilante”. E sempre cita uma frase sobre a esperança do brasileiro: “O Brasil é um país tão bom que à noite se recupera, enquanto os políticos dormem, do que foi roubado durante o dia”.
Um gozador nato
Na seriedade dos cargos, Walmor sempre encontrou tempo para ironias. Coisa de mineiro fazer troça com os amigos. Quando era vereador, estava na oposição, e com Tarcísio Germano de Lemos revezava a tribuna para críticas, principalmente à falta de limpeza de um terreno ao lado da antiga Prefeitura, na rua Barão de Jundiaí.
Nessa época arrumou gente para um mutirão e o terreno foi parcialmente limpo. O mato cortado foi jogado na porta da Prefeitura, o que motivou notícia em jornal, afirmando que era vandalismo. Na tribuna, Walmor retrucou: “Não era mato, era capim da melhor espécie, senhor prefeito”.
Como o mato cresceu novamente, as críticas voltaram. Numa sessão de Câmara, durante um inflamado discurso, Walmor mostrou a “prova irrefutável” do perigo do terreno. De dentro de um saco de cimento tirou uma cobra, já morta, e jogou sobre o líder de governo. Tumulto geral, com o líder berrando que aquilo era uma trama.
Como a cobra desapareceu, acreditaram que ela havia fugido. E Walmor continuou: Ela fugiu de vergonha desta casa”. A cobra foi um caso dentre muitos. Em 1992, por exemplo, precisando votar uma suplementação de verba – que os vereadores não queriam – mandou colocar um caixão de defunto na porta da Câmara.





