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quinta-feira, 8 outubro, 2026

Eufemismos e afins

Editores têm usado ultimamente uma coleção de palavras para tornar os textos mais agradáveis; outras, para dar ao texto ar de erudição e profundo conhecimento da língua portuguesa. É um costume que se alastra como praga, enterra a simplicidade e torna mais difícil a compreensão. Isso não vale somente para jornais, revistas, rádio e televisão. Isso está em tudo.
Há assessorias de imprensa que não mais escrevem que determinada rua será asfaltada. Escrevem que tal rua será contemplada com asfalto. Outras, que determinado órgão não oferece oportunidades. Preferem que esse órgão esteja oportunizando. Tal bairro, em outro caso, não terá uma praça. Será contemplado com tal praça.
Tem-se a impressão que houve sorteios, tanto para o asfalto quanto para a praça. Da mesma forma que não tornam nada disponíveis – tudo é disponibilizado. Sem contar as inúmeras redundâncias, como tantos metros quadrados de área, ou de tal repartição localizada na rua tal. O localizada é mais que dispensável, tal sua redundância.
No mundo da moda – e por extensão das lojas de roupas – pessoas obesas deixam de ser gordas para se tornarem plus size. Por aqui, negros deixaram de ser negros – agora são afrodescendentes. E os brancos nem acompanharam a onda – poderiam se tornar eurodescendentes.
Carros usados não são mais usados – são seminovos. Casas anunciadas por imobiliárias não têm exaltadas suas qualidades de construção, espaço e acabamento. Normalmente são enfatizadas nesses anúncios sua localização (perto de shopping ou de terminais de ônibus) ou a vista que sua janela pode proporcionar. No caso de Jundiaí, a linda vista da Serra do Japi.
É a prova cabal do emburrecimento coletivo, da falta de estudo, da falta de leitura e até da preguiça de assimilar algum conhecimento. Há algum tempo nos foi imposta a reforma ortográfica, cujo âmago trata da eliminação de hífens e acentos. A desculpa é uma, e bem esfarrapada – a dinâmica da língua. A realidade é que ninguém mais aprende as regras de acentuação e da colocação do hífen. Pura preguiça.
A preguiça, por sinal, está multiplicada por mil. Ou até mais. Há 40 ou 50 anos, trabalhos escolares precisavam de pesquisas em bibliotecas. Precisavam de leitura. Hoje é tudo pela Internet, e na maioria das vezes, com textos copiados e colados. Tanta facilidade à mão seria de se presumir que haveria mais conhecimento. Mas aconteceu justamente o contrário.
A conhecida cartilha de alfabetização Caminho Suave está sepultada. Decorar a tabuada nem pensar. Há escolas em que ensinar tabuada é proibido. E ai do professor que contrariar a determinação superior assinada pelo asno de plantão.
A triste notícia: esse estado de coisas não tem conserto. A tendência é piorar cada vez mais. Se hoje se escreve mal, com erros crassos, se estuda menos e nada se aprende, dentro de alguns anos teremos uma geração de analfabetos funcionais. Ou será que já temos?
Hoje os diálogos são truncados por falta de vocabulário. Ouvir alguns jovens conversando é como ouvir uma língua estrangeira, talvez o javanês. Daqui a alguns anos não haverá palavras – a comunicação será por grunhidos, como no tempo das cavernas.
Mas que se contentem os pseudo eruditos. Haverá espaço para novos eufemismos e neologismos. Hoje, agendar é colocar na agenda. Logo, quando alguém colocar algo sobre a mesa estará mesando. Falamos em grunhidos? Erramos – já estamos quase zurrando.

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