Estava bom demais pra ser verdade. Há algum tempo, pesquisadores da (USP) Universidade de São Paulo, em São Carlos, conseguiram desenvolver uma substância, a fosfoetanolamina sintética, que surgiu como provável cura do câncer. Não faltaram testemunhos de gente afirmando ter sido curada após ingerir as cápsulas.
A notícia se alastrou feito rastilho de pólvora. Muita gente foi à Justiça para garantir a posse do remédio, e a Justiça não se fez de rogada – distribuiu liminares a rôdo. Aí, o Conselho Regional de Farmácia resolveu fiscalizar o laboratório onde a fosfoetanolamina sintética é produzida, e chegaram à brilhante conclusão que os pesquisadores não seguiam algumas normas, como controle de qualidade.
Moral da história: a USP ganhou uma multa, e o fato foi comunicado à Vigilância Sanitária. De fato há problemas, alguns técnicos. A substância não tem registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); ela também não passou pelo número de testes necessários em humanos, coisa reconhecida pela própria USP. E isso a leva ao não reconhecimento como remédio. Também não se sabe qual a dose adequada para o tratamento.
Agora, as incoerências. Oferecer remédio a alguém condenado a morrer pouco muda para os técnicos do Conselho Regional de Farmácia ou para a Anvisa. Mas quem sofre o problema tem, com isso, uma esperança de vida a mais. Coerência seria a Anvisa e o CRF acompanharem o tratamento de pessoas que se dizem curadas para liberar sua fabricação em escala industrial.
Pior de tudo: Pedro Eduardo Menegasso, presidente do Conselho de Farmácia, afirmou que o CRF não sabia da produção da fosfoetanolamina sintética, mesmo ela sendo produzida e distribuída há anos. E entregou o ouro – o CRF só ficou sabendo porque houve muita divulgação na mídia. Pra não passar recibo, o CRF afirmou ainda que não costuma fiscalizar laboratórios de universidades.
“No conselho, a gente fiscaliza o trabalho com medicamentos. O instituto em São Carlos é uma faculdade de química, um laboratório didático”, justificou, apontando que o órgão agiu diante do posicionamento da Justiça sobre o assunto.
“Não é um medicamento porque não tem registro no Brasil como medicamento, o problema é que a Justiça transformou em medicamento a partir do momento em que obrigou o laboratório a fornecer para as pessoas como medicamento. É o primeiro caso, no Brasil, em que você tem um produto experimental transformado à força em um medicamento por força da Justiça.”, afirma Menegasso.
A história não é bem essa. Grandes laboratórios têm um poder de fogo inimaginável em se tratando de negócios. Não fabricam remédios por caridade ou sentimentos humanitários. Fabricam porque isso dá muito dinheiro. E é até estranho que, justamente no Brasil, país considerado atrasado em termos de pesquisa científica, seja descoberta a cura do câncer.
Ou nossos pesquisadores são realmente gênios, merecedores do Prêmio Nobel de Medicina, ou então os grandes laboratórios já têm o remédio há muito tempo, preferindo escondê-lo do público – dá mais lucro somente prolongar a vida de um paciente com câncer do que curá-lo.
Há ainda outro fator a ser considerado – a frequente relação incestuosa entre laboratórios, Anvisa e conselhos médicos ou farmacêuticos. O que piora ainda mais a atitude do CRF em relação ao laboratório da USP São Carlos.





