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quarta-feira, 4 novembro, 2026

USP punida por fabricar remédio contra câncer

Estava bom demais pra ser verdade. Há algum tempo, pesquisadores da (USP) Universidade de São Paulo, em São Carlos, conseguiram desenvolver uma substância, a fosfoetanolamina sintética, que surgiu como provável cura do câncer. Não faltaram testemunhos de gente afirmando ter sido curada após ingerir as cápsulas.
A notícia se alastrou feito rastilho de pólvora. Muita gente foi à Justiça para garantir a posse do remédio, e a Justiça não se fez de rogada – distribuiu liminares a rôdo. Aí, o Conselho Regional de Farmácia resolveu fiscalizar o laboratório onde a fosfoetanolamina sintética é produzida, e chegaram à brilhante conclusão que os pesquisadores não seguiam algumas normas, como controle de qualidade.
Moral da história: a USP ganhou uma multa, e o fato foi comunicado à Vigilância Sanitária. De fato há problemas, alguns técnicos. A substância não tem registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); ela também não passou pelo número de testes necessários em humanos, coisa reconhecida pela própria USP. E isso a leva ao não reconhecimento como remédio. Também não se sabe qual a dose adequada para o tratamento.
Agora, as incoerências. Oferecer remédio a alguém condenado a morrer pouco muda para os técnicos do Conselho Regional de Farmácia ou para a Anvisa. Mas quem sofre o problema tem, com isso, uma esperança de vida a mais. Coerência seria a Anvisa e o CRF acompanharem o tratamento de pessoas que se dizem curadas para liberar sua fabricação em escala industrial.
Pior de tudo: Pedro Eduardo Menegasso, presidente do Conselho de Farmácia, afirmou que o CRF não sabia da produção da fosfoetanolamina sintética, mesmo ela sendo produzida e distribuída há anos. E entregou o ouro – o CRF só ficou sabendo porque houve muita divulgação na mídia. Pra não passar recibo, o CRF afirmou ainda que não costuma fiscalizar laboratórios de universidades.
“No conselho, a gente fiscaliza o trabalho com medicamentos. O instituto em São Carlos é uma faculdade de química, um laboratório didático”, justificou, apontando que o órgão agiu diante do posicionamento da Justiça sobre o assunto.
“Não é um medicamento porque não tem registro no Brasil como medicamento, o problema é que a Justiça transformou em medicamento a partir do momento em que obrigou o laboratório a fornecer para as pessoas como medicamento. É o primeiro caso, no Brasil, em que você tem um produto experimental transformado à força em um medicamento por força da Justiça.”, afirma Menegasso.
A história não é bem essa. Grandes laboratórios têm um poder de fogo inimaginável em se tratando de negócios. Não fabricam remédios por caridade ou sentimentos humanitários. Fabricam porque isso dá muito dinheiro. E é até estranho que, justamente no Brasil, país considerado atrasado em termos de pesquisa científica, seja descoberta a cura do câncer.
Ou nossos pesquisadores são realmente gênios, merecedores do Prêmio Nobel de Medicina, ou então os grandes laboratórios já têm o remédio há muito tempo, preferindo escondê-lo do público – dá mais lucro somente prolongar a vida de um paciente com câncer do que curá-lo.
Há ainda outro fator a ser considerado – a frequente relação incestuosa entre laboratórios, Anvisa e conselhos médicos ou farmacêuticos. O que piora ainda mais a atitude do CRF em relação ao laboratório da USP São Carlos.

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