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segunda-feira, 2 novembro, 2026

Editorial: A República de Canudos

Antonio Mendes Maciel, o Conselheiro, morreria de inveja nos dias atuais. Teria concorrentes de peso, que lhe arrebatariam sua pequena Canudos do século 19 com ardis inimagináveis aos jagunços; mas, tal qual os “líderes” atuais, o Conselheiro conseguiu abalar a República recém-proclamada, vista como a razão de todos os males, a encarnação do anticristo.
Mas o Conselheiro é um dos exemplos para a situação atual. Climas desse tipo favorecem a proliferação de gente com solução pra tudo, normalmente radicais ao extremo, cheia de promessas impossíveis. Mas que consegue apoio da plebe ignara. O encontro da desesperança com palavras de esperança; o exato discurso que o populacho quer ouvir.
Antonio Conselheiro juntou a fé dos sertanejos, depois de vinte anos andando pelos sertões, com o ódio aos impostos criados pela República. Foram necessárias quatro expedições do governo para acabar com Canudos, a última com cinco mil soldados.
Não precisa ir tão longe. Napoleão Bonaparte incendiou a Europa com seu discurso nacionalista como cônsul ou imperador. Hitler foi pior – começou discursando para o exército alemão, depois aos sindicatos de trabalhadores, finalmente para um partido, que mais tarde se tornou seu. E daí para o mundo. Havia quem acreditasse.
Estamos num clima propício. Os primeiros messias já apareceram, junto com suas promessas e outras cantilenas. Logo ocuparão páginas e páginas de jornais e principalmente o horário eleitoral gratuito. Dirão o que todos querem ouvir. Soluções para o desemprego, para os casos de corrupção, para as exportações, para os sindicatos, para os aposentados. E caso algum desses novos conselheiros chegue ao poder, fará exatamente o que os anteriores têm feito. Nada.
Criará outros mensalões, mensalinhos e petrolões para se manter no poder. Usará sua mulher, travestida de primeira-dama e analfabeta e ignorante na essência para enviar recados, ir às festas, receber colegas estrangeiros… E o povo? Ora, o povo é só um detalhe. O mais honesto já confessou que usou discurso para enganar.
Conselheiro, pelo menos, era convicto em suas prédicas. Os atuais são dissimulados. São ardilosos, têm maldade. O anticristo da hora é o burguês que trabalha e paga as contas. É o empresário que “explora” pelo lucro; é o nefasto que tem fortuna construída durante anos de trabalho.
O governo, que a tudo assiste e manobra, fez do diário oficial uma coleção de palimpsestos, renovada todos os dias conforme a conveniência e a necessicade. O ministro nomeado e não empossado segue interpérrito. Nós, os jagunços do século 21, continuamos com nossa fé. Conselheiro era mais autêntico, mas os atuais conseguiram criar uma nova república. Bem pior que a de Canudos.
 
 
 

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