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segunda-feira, 2 novembro, 2026

Editorial: O mês da embromação

Com março chegando ao fim, boa parte do povo está preocupada, ou começando a se preocupar, com a maldita declaração do Imposto de Renda. Contadores e especialistas já anunciam o serviço, e o assunto entre a plebe é como declarar, o que pode e o que não pode, e como driblar a fiscalização.
Concordemos. O Imposto de Renda é um assalto. O nosso querido, amado, venerado e honesto governo considera o salário como renda. Em outros lugares mais atrasados, como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, salário não é renda. Renda é o que se consegue de outras formas, como alugando casas, aplicando dinheiro em fundos bancários, fazendo transações comerciais lucrativas.
Um parêntese: Tiradentes (José Joaquim da Silva Xavier) foi enforcado em 1792 porque liderou uma revolta contra os portugueses, que cobraram um imposto, o quinto, equivalente a 20%. Nosso Imposto de Renda cobra 27,5% e ninguém se revolta. E isso só o IR. Se colocarmos outros impostos que pagamos na marra, obrigados, teremos quase 45%. Ninguém se revolta.
Mas o excesso de cobrança, a voracidade do Fisco, tem como consequência aumento na sonegação. E abril será o mês onde todos os artifícios possíveis serão usados, discutidos, analisados para escapar dessa extorsão oficial. Vale tudo para tirar cada centavo do amado e honesto governo.
Em alguns lugares do mundo chega-se a pagar quase 50% de impostos. E todo mundo paga com satisfação. Em países nórdicos, por exemplo, o que é pago é devolvido em forma de serviços. Ao nascer, o cidadão tem direito a médico, hospital, creche, escola, doutorado, por conta do governo. E tudo serviço de ponta. Medicina avançada, hospitais que aqui seriam de luxo, escolas públicas comparáveis às nossas melhores particulares. Ou até melhores.
Nesses países, há poucos deputados. Os que exercem tal função, usam transporte público (ônibus e metrô), moram em alojamentos coletivos e não são acompanhados de séquito de assessores. Só um exemplo: quando a primeira-ministra alemã Angela Merkel viaja, usa o avião do governo. Seu marido segue em vôo comercial, pagando a passagem do próprio bolso.
Talvez pagássemos mais impostos e declararíamos a Renda sem esconder nada se tivéssemos o mesmo que alemães, noruegueses, canadenses, finlandeses. Mas temos o inverso. Mais de 500 deputados federais, 81 senadores, milhares de deputados estaduais – rodeados de assessores, motoristas particulares e como todas as despesas pagas pelo erário.
Mas todos sabemos que o que já foi arrecadado (desconta-se o IR na fonte) e o que será cobrado, ou foi ou será desviado nas negociatas. Dos milhões que afirmam serem destinados a um hospital, chegarão alguns centavos – a maior parte fica no caminho; as estradas continuarão péssimas, as escolas um lixo. E tem gente defendendo a volta da CPMF. Abril será mesmo o mês do pensamento, dos ardis e dos milagres para fugir do assalto.
 

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