Alguém já disse que tudo é uma questão de ponto de vista. O que é ruim para alguns, pode ser bom para outros. Assim, ruas esburacadas são uma maldição para os motoristas, mas uma bênção para as oficinas mecânicas. Temporais castigam donos de TV e outros eletrodomésticos, mas são a alegria das oficinas de conserto.
As manifestações que estão acontecendo há uns tempos também têm seu lado bom. Vejamos: a mortadela, antes considerada artigo de terceira, está de novo em evidência. Militantes de ambas as correntes trocam insultos – para um lado, existe até o Mortadela Day; para outros, o Coxinha Day.
Sim, a coxinha também está ganhando status. Passou de salgadinho mata-fome para designar os chamados burgueses. O que não dizer então dos materiais usados nas manifestações? Não dá para saber quanto pano foi vendido para se fazer faixas, nem quanta tinta foi usada para escrever frases contra ou a favor do governo. Até a prosaica cartolina está vendendo para manifestantes que preferem cartazes.
A indústria agradece tantas manifestações. Cada vez que a Polícia Militar joga uma bomba de gás lacrimogênio ou de efeito moral em manifestações, provoca necessidade de reposição. Cada bala de borracha atirada também. Policiais precisam de viaturas para se movimentar, e viaturas queimam combustível.
Que tudo isso é uma dor de cabeça sem fim ninguém duvida. Mas sempre há o lado bom da história. Nem tudo é prejuízo. Até para jornalistas significa mais trabalho – os bons procuram inovar suas coberturas, fugir do lugar comum. Poucos conseguem.
Numa escala maior – e põe maior nisso – estão as guerras. Americanos invadiram o Iraque para colocar as mãos no seu petróleo. Gastaram horrores com essa guerra – uniformes, calçados, munição, comida, combustível, equipamentos destruídos que precisam ser repostos. Alguém ganhou muito. O americano faz guerra, conclui-se, não por ideais. Puro lucro. Negócios.
Voltemos às manifestações. Quando elas terminarem, quando tudo ficar resolvido, muita gente irá sentir saudade. Por pouco tempo. Sempre haverá inconformados, tanto de um lado quanto de outro. Se a presidente rodar, seus seguidores já prometeram barulho. Se não, os coxinhas continuarão protestando.
Talvez cheguemos a um ponto obscuro. O que valeria mais a pena? Uma coisa é certa – enquanto alguém estiver ganhando dinheiro haverá sempre um motivo para uma faixa, um cartaz, um muro pintado. Os americanos estão fazendo escola.





