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sábado, 31 outubro, 2026

Editorial: Lembranças

Quando entregamos a primeira edição do jornal Via Arens, na semana passada, alguns leitores nos sugeriram que mostrássemos a transformação havida no bairro. Uma espécie de comparativo entre o que existe hoje e o que um dia existiu. Saudosistas, está certo, mas que aceitam os tempos modernos e sabem que o mundo nunca vai parar.
Em conversas, lembramos que a feira-livre, onde se vendia frangos vivos, ficava nas ruas Moreira César, Frei Caneca e Regente Feijó. Lembramos que o melhor queijo da feira era vendido pela Terezona, moradora de uma casa com terreno gigante, na esquina da rua Moreira César e avenida Fernando Arens.
As lembranças não ficaram por aí. Houve festa quando a paróquia inaugurou sua gruta – que ainda está lá. Era um tempo em que o dia 8 de dezembro, dia da padroeira do bairro (Nossa Senhora da Conceição) era feriado em toda a cidade.
Havia, no início da avenida Olavo Guimarães, um chafariz. E ao seu lado, num ponto de carroças. Carroças de aluguel, usadas para transportar o que os magros cavalos suportassem. Carroças também havia aos domingos, estacionadas no Largo da Feira, hoje Praça Qintino Bocaiúva.
E cavalos forneciam o melhor esterco para os jardins que todos tinham em frente suas casas. Coletado pela molecada, a mando das mães. Os ônibus, nessa época, eram escassos, e todos sabiam seus horários. Quando vinham do bairro para o Centro, traziam no letreiro “Cidade”. Até que inventaram o Grande Circular, cujos pontos inicial e final eram a Estação Ferroviária.
A Viação Cometa ficava na rua Vigário. Não usava os ônibus Scania, batizados de Dinossauro. Eram ônibus Mercedes Benz, batizados Senemby. Saíam da garagem, subiam a Vigário (então de paralelepípedo, com duas mãos de direção) até a Cândido Rodrigues. Daí tomavam a Barão de Jundiaí e paravam na Praça Governador Pedro de Toledo, em frente a Catedral. As passagens eram vendidas num guichê dentro do Bar do Napoleão.
Muitos dos horários eram controlados por apitos das fábricas, como a São Bento, a Japi, a Caldas, a Milani, a Sifco (nascida como Companhia Agrícola, fabricante de enxadas) e até o Filipini. Mas o apito mais forte era mesmo o da Cica, cujo relógio, em sua torre, era visto de longe.
Relógio que só rivalizava com o da igreja. E apitos que também eram encobertos pelos sinos da mesma igreja, cujo carrilhão é um dos maiores do Brasil até hoje. A mesma igreja onde havia organistas como dona Olga ou dona Leonor; que tocavam órgãos de verdade, não eletrônicos. O da igreja está lá até hoje. É de tubos, trazido da Alemanha pelos padres salvatorianos.
Era ainda um bairro com dois cinemas. Um, o República, onde hoje está um banco. Outro o Vila Arens, ao lado da igreja, onde, além de filmes, apresentava festivais, sempre animados pelo vereador-farmacêutico do bairro, Lázaro de Almeira, o Arquimedes. O mesmo Arquimedes que dava lição em médicos.
Mas como tudo, o tempo passou. As coisas mudaram. Sobraram as lembranças.

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