A cada dia, tem-se a nítida impressão que o responsável por todos os males que nos afligem é o motorista, o dono do carro. Não passa mais de dois meses sem que o Contran invente alguma coisa para atazanar a vida de quem dirige. Não passa um ano sequer sem que alguém – ou uma mula – tenha uma nova ideia para infernizar a vida do motorista.
Na semana passada foi a vez dos senadores, que aprovaram o seguinte: todo mundo deve andar de farol aceso durante o dia. Dizem que é para o carro ser visualizado pelo pedestre, que isso vai evitar acidentes. Tudo cascata.
Andando constantemente com os faróis acesos, o motorista vai gastar mais. A vida útil das lâmpadas será menor, e alguém – no caso os fabricantes – vai ganhar dinheiro. Pode parecer pouco, mas multiplique-se o valor de uma lâmpada de farol pelos milhões de carros que circulam no país. E cada carro tem, no mínimo, dois faróis. E quando se acende o farol, acendem-se também as lanternas. Moral da história: quatro lâmpadas por carro.
A frota de Jundiaí, para se ter ideia, era de 300 mil carros em 2014 – última estatística disponível, porque o governo tem preguiça de trabalhar e fazer estatística. Então, só em Jundiaí serão um milhão e duzentas mil lâmpadas acesas enquanto os carros circulam.
Já houve palhaçada para todos os gostos. Teve uma época em que o motorista era obrigado a ter no carro o estojo de primeiros socorros, como se um pedaço de esparadrapo resolvesse a vida de um acidentado. Depois que os fabricantes se encheram de dinheiro, o estojo deixou de ser obrigatório.
Recentemente teve a história do extintor de incêndio, que obrigou todo mundo correr para comprar um, e com ágio. Uma porcaria de um extintor, que não apaga nem um fósforo aceso, chegou a custar R$ 200. Agora ninguém mais é obrigado a usar extintor. Nem o tipo A, nem o tipo B, nem o C, e menos ainda o ABC. Alguém também ganhou muito dinheiro com isso.
Talvez tudo isso nos leve a pensar que a comissão dos senadores nesse negócio deve ser boa. Não só deles. Não faltam denúncias de corrupção em detrans. E é bom lembrar que até há pouco tempo o Denatran era controlado pelo PR, do senhor Valdemar da Costa Neto, corrupto condenado no Mensalão, hoje em prisão domiciliar.
O que mais vão inventar? Tudo não pode. A proibição é sempre para o motorista. Não seria hora de educar pedestre para atravessar na faixa? Não seria a hora de explicar para o ciclista que ele precisa seguir as mesmas normas do Código de Trânsito, válidas para os motoristas, em vez de colocar faixas pedindo respeito aos pedestres e ciclistas? Não seria a hora de explicar que pedestre precisa atravessar a rua sem ficar enfurnado no celular?
Não. Mais fácil infernizar o motorista, inventar multas, criar normas. Difícil mesmo é pregar pureza de combustíveis, evitando-se os postos sem bandeira, enquanto a nossa gasolina é adulterada oficialmente pela Petrobras, que nela coloca, em cada litro, 270ml de álcool. Para ajudar os usineiros.





