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quinta-feira, 27 agosto, 2026

Uma freira em defesa do aborto

Quando a história veio a público, houve revolta num primeiro momento – uma criança de dez anos havia sido estuprada durante quatro anos por um tio, e estava grávida. Com o tio preso, os ânimos se acalmaram, mas começou outra confusão, quando a Justiça autorizou o aborto, previsto em lei por se tratar de estupro. O primeiro hospital procurado se recusou a fazê-lo. Na segunda tentativa, o aborto ocorreu, mas num hospital distante.

Não tão distante dos conservadores, que protestaram em frente ao hospital. Religiosos incentivaram os protestos, e o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Dom Walmor Oliveira de Azevedo, publicou nota oficial, afirmando que a interrupção da gravidez era crime hediondo e que a violência do aborto não se explica.

A posição do bispo e de conservadores não encontrou tanto eco na Igreja Católica. A freira Ivone Gebara, da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora, não esperou muito para publicar um artigo condenando os que insultaram a menina. “Os incautos e ingênuos defensores da vida assim como os perversos políticos extremistas entram e alimentam o jogo político montado e armam uma nova polêmica em torno do aborto”, escreveu ela.

Não é de agora que a freira tem posições contrárias e polêmicas. Ela, que é feminista, teóloga e filósofa, já esteve em outras confusões, e chegou a ser punida pela Igreja Católica. Mas não mudou seus conceitos. Em seu artigo, continuou:

“Em plena crise pandêmica da covid-19 onde diferentes tipos de manipulação política não faltam, enfrentamo-nos a uma outra perniciosa e mortal que se expressa em ‘amar mais ideias e princípios do que a frágil vida que temos’, ‘amar mais as leis religiosas caducas do que as dores reais que assolam meninas e mulheres’, ‘amar e defender mais interpretações sacrificiais da Bíblia do que a vida real e provisória’, ‘amar mais as vidas futuras do que as presentes’ e com isso condenar vítimas de estupros e acusar meninas, jovens e mulheres estupradas de infanticídio”.

A freira é corajosa. Citou nominalmente o presidente da CNBB e se intitula como uma desobediente. “Minha idade já não me permite o antigo respeito formal às autoridades civis, militares e eclesiásticas. Não posso calar diante de tantos fatos que me apavoram e por isso denuncio uma velha pandemia viral entre os humanos muito presente em nosso tempo, especialmente entre religiosos”, escreveu.

As confusões da freira vêm de longe. Em 1993 ela foi a entrevistada das Páginas Amarelas da revista Veja. “A mãe tem, sim, algum direito sobre a vida que ela carrega no útero. Se ela não tem condições psicológicas de enfrentar a gravidez, tem o direito de interrompê-la”, destacou a revista, atribuindo as frases à freira. “Aborto não é pecado. O Evangelho não trata desse assunto”. O Vaticano, ao tomar conhecimento da revista e das declarações da freira, condenou-a ao chamado silêncio obsequioso, e ela deixou o país, ficando dois anos sem dar aulas ou entrevistas. Atualmente vive sozinha num apartamento, na Capital, sem deixar sua congregação, onde está há 22 anos. Está com 75 anos, e não mudou de opinião.

Ela explicou à BBC News o que é a teologia feminista: “Muitas mulheres, de diferentes igrejas, começaram a perceber [em suas religiões] o mesmo processo de exclusão e de diminuição de direitos, de falta de representatividade, de centralidade em figuras masculinas e sempre essas figuras masculinas determinando qual é o papel das mulheres e ordenando e submetendo os corpos das mulheres.

Essas mulheres, essas teólogas começaram a perceber como as igrejas e em particular as igrejas cristãs reproduziam a mesma hierarquia e a mesma falta de direitos porém com um agravante: encobriam essa falta de direito como vontade divina ou como “está escrito na Bíblia”. Então praticamente nos impediam de dar algum passo porque sempre diziam “sinto muito, mas essa não é a vontade de Jesus”, “sinto muito, mas não é isso que Deus estabeleceu”.

Isso começou a criar incômodos crescentes. Devo dizer que as pioneiras que trabalharam nessa perspectivas foram as norte-americanas, as inglesas, as alemãs. Então eu estudei na Bélgica, em Louvain, em um tempo em que a Teologia da Libertação começava a se desenvolver.

Fiquei absolutamente encantada e apaixonada e comecei a entrar dentro desse universo, que me atraiu e eu fui de certa forma integrada no movimento da Teologia da Libertação, participei de muitos congressos, muitos encontros. Então fui considerada uma das primeiras teólogas da libertação. De repente, me encontrava com as feministas do Recife, do Rio de Janeiro…”

Ivone fala também sobre sua punição: “Fui punida, sim, por um tempo de silêncio. E me fizeram sair do Brasil e estudar de novo em Louvain. Agora eles não fazem punições assim declaradas, mas têm outras formas de punir que continuam tão atuantes como antes, talvez menos drásticas. Agora não mais a partir do poder central mas dos poderes episcopais locais que vão também cerceando suas falas e suas apresentações. Eu dei aquela entrevista para a Veja, o jornalista me fez a pergunta e me disse “estou perguntando em off”, mas o off dele se tornou público.

E também houve uma manipulação na ordem das perguntas, colocaram [na edição] uma acima da outra para fazer eu dizer no texto o que eu não tinha dito. E foi um título muito chamariz. Aí o bispo local de Recife [onde ela morava na época] me pediu uma retratação pública. Eu não podia fazer uma retratação pública, porque parte do que estava escrito correspondia. Me neguei. Então ele abriu um processo contra mim no Vaticano e o resultado foi que eu tinha de voltar aos estudos. E um silenciamento por um tempo. Fiz um doutorado lá na Bélgica, um outro doutorado. Foi um tempo de muita solicitação, nunca escrevi tanto, nunca falei tanto. Mandaram eu calar mas eu não calava — nunca recebi tanta carta, tanta coisa. Foi um momento de muita graça”.

A freira continua defendendo a legalização do aborto: “Eu não defendo o aborto, eu estou falando da legalização, que é outra coisa. Por exemplo, quando você fala da legalização da maconha, você está falando que precisa de leis para o uso da maconha. Você tira a maconha da criminalidade. Estou falando a mesma coisa, é preciso legalizar o aborto. É preciso legalizar, especialmente pensando nas mulheres pobres, porque as mulheres ricas fazem e não perguntam, e tem muito profissional de medicina que faz e ganha dinheiro fazendo isso, enquanto para mulheres mais pobres, mais vulneráveis, não há proteção legal — há criminalização”.

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