Provavelmente poderemos passar mais algumas décadas sem conseguir responder à pergunta: qual a finalidade da televisão? Talvez a televisão seja o meio de comunicação mais estudado desde seu surgimento, no século 20. Talvez seja também o meio de comunicação que possui maior número de teses e teorias, mas nenhuma conclusiva. Ou conclusivas demais: a televisão serve para tudo.

Como qualquer novidade, quando a televisão surgiu era só uma novidade. Seus inventores tinham em mente um objetivo, o de reproduzir uma imagem à distância. Conseguiram, e então surgiram os empreendedores, os visionários, que discutiram uma aplicação para o evento. Entenda-se por aplicação sua transformação em negócio.
Negócios são o Norte da imensa bússola que é o mundo. Em nome deles acontecem as guerras e a paz. Em nome deles há diversão, cultura, informação. Tal como o rádio, a televisão deslanchou quando virou negócio, e como negócio passou a se fazer presente nos lares, nos escritórios e nos lugares com concentração de público. A equação era e continua sendo simples: para cada minuto de diversão, cultura ou informação, alguns segundos de puro negócio – a publicidade.
Ao contrário da mídia impressa, a televisão soma críticos, teóricos e profetas, além de, a cada dia, ganhar inimigos tão ferozes quando seu poder de convencimento. Um jornal editado e impresso é aquilo que está nas bancas e ponto final. A televisão exige mudanças a cada sinal de queda na audiência, e seu humor pode mudar de um minuto a outro.
A mídia impressa atrai o leitor pelo ineditismo, pela apresentação, pelo interesse que seu público tem em determinados fatos. A televisão impõe a quem ouve e vê um formato. Se não agradar, o controle remoto é seu maior desafio – nada impede de quem a vê trocar de canal.
Canal é outra novidade que chegou com a televisão. O rádio, seu precursor, ainda hoje é ouvido e conhecido pela frequência, e mesmo as mais complicadas, como as de FM (Frequência Modulada), com até quatro dígitos, ou as de OC (Ondas Curtas), com faixas específicas e quilociclos que precisam se encaixar com perfeição no capacitor variável que as recebe, estão memorizadas pelo público. A televisão facilitou – está nos canais.
Em nome da audiência e dos negócios, talvez seja também a televisão o meio de comunicação que mais teve suporte técnico para chegar ao maior número de lugares possível. As concessões para tevês de sinal aberto são, via de regra, para VHF (Very High Frequency), mas obstáculos naturais e distâncias são facilmente vencidos com a retransmissão em UHF (Ultra High Frequency) ou via cabo. Agora digitais.
A televisão produziu também tantos aliados quanto inimigos em seu tempo de existência. Foi alçada à condição de algoz do cinema, mas a ele se abraçou para exibir filmes. Foi além, quando passou a dividir as estantes primeiro com o vídeocassete, e depois com os DVDs.
Foi profetizada como a substituta do rádio, mas, curiosamente, saiu do rádio boa parte de seus profissionais, e raramente quem controla uma emissão não tem também uma estação de rádio.
Os maiores conglomerados se formaram a partir do rádio ou de jornais. com os quais a televisão também se aliou. À sua volta existe um mercado tão grande, que se um dia a televisão deixar de existir não como medir o impacto na economia de praticamente todos os países.
Por causa da televisão existem as agências de publicidade com tecnologia de ponta, as revistas que informam seu conteúdo e levam ao público o que acontece quando as câmeras e refletores estão desligados; produz-se equipamentos para tudo, desde lâmpadas que corrigem cores a computadores que criam ilusões que a própria televisão já pariu; vive-se num mundo a parte do mundo real, formado por artistas, apresentadores, técnicos e até pelo porteiro da emissora da moda – nada como um crachá para ser identificado como tal.
E quando parecia haver terminado o “o que fazer com a televisão?”, apareceram novas técnicas e ideias. Se é possível transmitir imagem à distância, por que não usar essa facilidade para saber o que se passa no interior do corpo humano? Depois da pergunta, técnicos e cientistas não demoraram para criar sondas dotadas de minúsculas câmeras – hoje comuns – para saber o exato tamanho de uma úlcera ou a condição de uma artéria.
Se transmite imagem à distância, nada melhor que uma câmera para mostrar aos terráqueos primeiro o que era a Lua, nosso único satélite. Em julho de 1969, quando Neil Armstrong desembarcou no Mar da Tranquilidade, teve a acompanhar seus passos uma câmera, ligada a um equipamento, que provou a milhões de pessoas, em todo o mundo, com olhos grudados nos receptores, que o homem havia saído do seu mundo.
Anos depois, solitária, uma câmera acoplada a um tratorzinho de brinquedo, o Mars Pathfinder, mostrou a bilhões de terráqueos como é a superfície de outro planeta, Marte. A paisagem desolada, inóspita, sepultou de vez a suspeita de escritores e outros crentes em vida extra-terrestre de criaturas verdes dispostas a invadir a Terra.
As mesmas câmeras estão presentes nos shoppings controlando as multidões que acorrem às compas. Nos elevadores, nas lojas, nos caixas eletrônicos, nos bancos, gravando tudo o que se passa. Estão onde está o público, seja numa grande casa de espetáculos, sujeita a vandalismo de turbas enfurecidas, seja na portaria de edificíos, para que o morador saiba quem o procura.
O mundo aprendeu lições com as guerras, e dentre elas está a que a própria guerra, considerada um ato estúpido, irracional, significa anos de avanço tecnológico. Assim foi com as bombas da série “V” da Alemanha (V-1, V-2, V-3), consideradas o princípio do enorme foguete Saturno que levou o homem à Lua. Assim foi com o rádio que falava à distância, por meio de células durante a Guerra do Vietnã, o precursor do telefone celular.
A televisão não se fez de rogada. A necessidade de informar levou-a usufruir da tecnologia militar. Satélites antes empregados para vigiar possíveis inimigos – com câmeras de televisão – passaram a ser usados para transmitir sinais de informação para o público.
Não se sabe onde isso vai parar. O míssel Tomahwk, por exemplo, é guiado por uma câmera, que envia imagens do que “vê” para sua memória. As imagens são confrontadas e a rota para o alvo pod ser corrigida sem que o homem intervenha. Outras câmeras, projetadas para resistir à água e à salinidade, vasculham o fundo dos ocesanos em busca de novidades.
Novidades que para a Ciência se traduzem em formas de vida, ou para exploradores, em descobertas de tesouros, como o navio Titanic. Não, o Titanic não era a meca dos exploradores. Há antigos navios ingleses, franceses, espanhóis e portugueses cujos manifestos de carga despertam cobiça maior – ouro e prata.
Uma das últimas novidades foi a internet. Como tanto outros inventos, nasceu com finalidade militar, disfarçou-se em instrumento para o meio acadêmico e terminou sem dono. Ou sem dono ou com milhões de donos. A internet, moderninha e interativa, tinha tudo para sepultar a televisão. A televisão agiu antes, e tornou a internet sua aliada também. Redes de televisão do mundo todo tem seus sites na internet e usam seu sinal para transmitir, a partir de um celular, de qualquer lugar do mundo. Nada escapa à televisão, tudo se transforma num grande negócio.
Pastores e religiosos que a defenestravam por transmitir cenas ousadas, íntimas ou de violência, hoje dividem espaço com as mesmas cenas. Aprenderam rapidamente usar o poder da televisão para arrebanhar novos fiéis e conservar os que já se converteram.
Alguns juram milagres, curas e transformações para vender a passagem para o Paraíso. Outros se limitam a falar incansavelmente sobre as vantagens do Reino prometido. Falam, mas o risco de não serem ouvidos os obriga a inserir um quadro menor com alguém traduzindo a pregação, para que os surdos-mudos também possam salvar suas almas.
A televisão leva para dentro das casas, em qualquer dia e horário, tudo o que o mundo oferece e o dinheiro pode comprar. Carros são cobiçados, mulheres são desejadas, e até o remédio de gosto amargo e efeito duvidoso transmite a garantia que os males serão curados. A televisão desperta paixões que se transformam rapidamente em amor ou ódio.
Cria histórias vividas por personagens que servem de modelo para uma temporada toda, lançando moda e criando novos hábitos e costumes. São as novelas, nascidas no rádio, que na televisão ganharam imagem. O que antes era sentido nas palavras passou a ser visto. A alegria é comemorada, e o sofrimento repartido entre todos os que se sentam frente à sua tela para as incontáveis horas de amores impossíveis e aventuras quase.
“Quem matou Salomão Ayala/” – A pergunta que não queria calar durante os meses em que a novela Pai Herói esteve no ar. Resposta só no último capítulo. A malvada Odete Rótman foi talvez a mais odiada das vilãs produzidas pelas novelas. Sua intérprete, Beatriz Segall, chegou a ser agredida nas ruas, tamanho era o convencimento do seu papel.
O rádio produziu um fenômeno chamado Repórter Esso, que levado para a televisão não sobreviveu aos interesses de quem comandava o negócio. Saiu do ar e deu lugar ao Ultra Notícias, na extinta TV Tupi, que também sucumbiu à avalanche do Jornal Nacional, da Globo. No Rádio, o Repórter Esso era a garantia que o que se falava era notícia e não boato. Era preciso que o Repórter Esso disse algo para se tornar verdade.
O Jornal Nacional – hoje totalmente desacreditado – também teve esse papel. Chegou a anunciar ministros antes que a Presidência da República os anunciasse. Presidentes sucumbiram durante anos à influência da TV Globo e da família Marinho nos destinos do País.
Poder. Este é o resumo da televisão. Se existiu um Roberto Marinho dizendo o que devia ou não ser feito, é sinal que o exemplo de Assis Chateaubriand frutificou. Herói para muitos, bandido para outros muitos, o pioneiro da televisão no Brasil, em 1950, sabia exatamente o que queria. Se com rádios, revistas e jornais marcava e desmarcava audiências, influía nos negócios do governo, anteviu que com a televisão fatalmente teria mais poder. Teve todo o poder que quis, e como vidraça, recebeu pedras dos estilingues que lhe atribuem histórias e fatos até os dias de hoje. Nem tudo o que falam é verdade. Nem tudo é mentira.
Como negócio, a televisão vende o que for colocado no mercado. Walter Clark, que durante muitos anos foi o chefe supremo da televisão brasileira, na Globo, profetizava que se um dia tivesse um negócio gastaria tudo o que pudesse anunciando na própria Globo. Ele sabia o que dizia. Afastado da televisão por ganhar muito dinheiro e ostentar ainda mais, colecionar mulheres e inimigos, tentou a vida em outras emissoras, sem o mesmo sucesso. Deixou à história um livro, cheio de ranço, onde se autoproclama um herói. Foram seus quinze minutos de fama que duraram anos.
Mulheres disputam aos tapas os segundinhos para mostrar o rosto e a plástica em programas de gosto duvidoso. Da televisão podem chegar às páginas de inúmeras revistas dirigidas ao público masculino, e do sucesso voltar à televisão para um trabalho mais estável. Com o tempo, podem chegar à fama e aos altos salários. A maioria chega no máximo à fama.
Uma ex-sem terra desnudou-se ao público masculino tentando provar que não era tão rude como os invadores de bandeirinha vermelha, depois de ser entrevistada pela televisão. Nua, ganhou as paredes de oficinas mecânicas e borracharias. Voltou à televisão, onde teve um programa só seu, mas depois foi pilotar caminhão de corrida na Fórmula Truck, na condição de ilustre desconhecida.
Como negócio, a televisão é cruel para seus servos. Se alguém proporciona audiência, seja comendo cacos de vidro seja engolindo lâminas de barbear, o teatro dos horrores fica indefinidamente no ar. Só dará lugar a outro quadro quando o público disser não. Nessa hora a televisão é impediosa. Demite, expulsa, massacra. Não lhe importa o tamanho do capacho.
Quem esteve na televisão sabe o que significa abandono, esquecimento. Hilton Franco uma vez se queixou que tinha dinheiro suficiente para viver até o fim da vida, mas que ninguém mais se lembrava dele. Justo ele, Hilton Franco, autor de idéias tão “produtivas” omo O Povo na TV, exibido fora do horário nobre, mas que tinha audiência de Jornal Nacional. Houve quem afirmasse que tal esquecimento era merecido. Cruel e impiedosa, foi por sua causa – a televisão – que se criou o retiro dos artistas. Solidariedade ou necessidade, o retiro é uma espécie de garantia de sobrevivência, no final da vida, aos que foram massacrados pela televisão, e, imprevidentes, gastaram tudo o que ganharam quando estavam na moda.
A televisão, agora com 70 anos de Brasil, levou menos de 50 para aprender que havia público para todos os gostos e gastos. Se repartiu em segmentos. Há canais para filmes, divididos por gênero, canais dedicados ao agricultor, aos clipes musicais, e até à venda pura e simples de produtos de eficiênci questionável.
Quem imaginaria que haveria espaço para um canal que transmitisse notícias – e somente notícias – dia e noite sem parar? Ted Turner, ex-senhor Jane Fonda, saiu na frente e criou, nos Estados Unidos, a CNN (Cable News Network), passando da condição de milionário para a de biliardário. E foi a CNN que transformou a guerra num show.
O jornalista Peter Arnet, da CNN, transmitiu da janela de um hotel de Bagdá, capital do Iraque, a chegada dos mísseis que os americanos jogavam na cabeça do inimigo Sadam Hussein. Era para ser uma guerra, mas mais parecida um espetáculo pirotécnico. Hoje a CNN tem outros donos, e está em outros países, inclusive no Brasil. Produziu suas crias, como a Globo News, aqui no Brasil, ou a Al Jazira, no Cattar. Diferente do Vietnã, o show de hoje prima pela imagem de destruição e eficiência dos artefatos para matar.
A televisão é um show, que atrai atenção, emudece a conversa de visitas, convoca torcida para a final de campeonato. Produz hábitos estranhos, como o de acordar de madrugada por causa de uma corrida de Fórmula Um, ou de diminuir as horas de sono por causa da entrega do Oscar. Transmite sentimentos que calam a consciência. Traz o superlativo como algo normal. É o show da vida.





