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quinta-feira, 29 outubro, 2026

Editorial: Incoerências da vida moderna

Comecemos com uma espiada no passado. Nossos avós cozinhavam em fogão à lenha, andavam de cavalo ou charrete, tinham hortas nos fundos dos quintais, faziam suas roupas nas costureiras mais próximas ou conhecidas, e por falta de opções andavam muito, fosse para visitas sociais ou o simples ir e vir do trabalho.
Mas aí veio a modernidade. Os fogões à lenha foram trocados por fogões a gás e pelo microondas. As lojas substituíram as costureiras com suas roupas prontas, algumas de grifes, criadas por costureiros e estilistas famosos. Os supermercados acabaram com as quitandas e armazéns oferecendo de tudo. O carro tornou-se a praga do século. E a revolução sexual, iniciada com a mini-saia de Mary Quant e a pílula anticoncepcional liberou a mulher.
Pelo jeito não deu certo. Ou então somos todos loucos. Aos poucos estamos regredindo, não se sabe se para melhor ou para pior. Andar, nos dias de hoje, tornou-se praticamente uma obrigação em nome da vida saudável. E andar talvez seja a primeira recomendação de qualquer cardiologista.
Paga-se caro para fazer exercício físico ou andar numa esteira de academia. Basta ver o número de academias em todos os lugares. A costureira conhecida ressurgiu para produzir modelos exclusivos, para pregar botões, fazer barras de calças ou trocar zipper.
Os alimentos considerados orgânicos, produzidos em pequenas propriedades, já têm preferência de boa parte dos consumidores. Custam caro, mas têm um apelo irresistível – não contêm venenos e sua produção é limitada, para poucos. Frangos criados à moda antiga, soltos em galinheiros – descobriu-se – são mais saborosos.
Restaurantes que servem pratos feitos em fogão à lenha vivem lotados. Alguns com filas quilométricas de espera nos fins de semana. E poucos resistem ao chamado do frango caipira, sem hormônios de crescimento e outras drogas empregadas nas granjas quase industriais.
Andar a cavalo tornou-se um esporte, e a cada dia há mais gente procurando cocheiras para acomodar seus animais. O número de pessoas que formam romarias a igrejas conhecidas pelos milagres aumenta a cada ano. E romaria que se preze tem cavalos e charretes. Não há romarias de carros.
Pequenos armazéns, como os de antigamente, são negócios rentáveis. Até grandes redes de supermercados já criaram seus departamentos mais intimistas, inaugurando lojas menores que lembrem o passado. A freguesia é fiel. E há um número cada vez maior de jovens casadoiras que afirmam querer chegar virgens ao casamento.
O que está faltando nessa volta ao passado é inteligência. Falta gente que aprenda as regras de acentuação e que escreva idéia ou jibóia com acento, agora abolido porque a burrice reinante impede que se aprenda tais regras. Faltam alunos que respeitem os professores. Falta gente educada nas filas de banco ou pontos de ônibus. Em suma, está faltando gente de verdade.

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