OAB quer mudanças na ortografia. Ninguém aguenta

Desde que se falou em mudanças de como escrever palavras da língua portuguesa, o furdúncio começou. Há um entendimento que, na preguiça de aprender, resolveu-se simplificar tudo. Mais ou menos isso: o aluno tem dificuldade de aprender regras de acentuação? Simples, é só tirar os acentos. Idéia virou ideia, jibóia virou jiboia.
Professores, escritores, jornalistas já reclamaram até, mas como o acordo está assinado, seria pra valer. Só que tem muitas brechas, e como advogados estão acostumados a achar brechas, a OAB está questionando e querendo algumas mudanças. A OAB, então, resolveu conversar com representantes da Academia Brasileira de Letras e do governo.
“O acordo ainda não está claro. Queremos fazer algo mais lógico. A língua não é feita para intelectuais. O povo tem que saber grafar. Perde-se muito tempo sendo alfabetizado”, diz o especialista em língua portuguesa e representante da OAB para Assuntos sobre Nova Ortografia, professor Carlos André Nunes.
A OAB pediu uma cadeira na comissão nacional que acompanha o Tratado Internacional do Acordo Ortográfico. Para tanto, deve se reunir ainda com representantes do Ministério da Educação e novamente com o pessoal do Itamaraty. Uma reunião com a comissão deverá ser marcada para discussão técnica de possíveis mudanças.
Uma das principais questões é o uso do hífen. A tão escrita Lava Jato, que dá nome à operação da Polícia Federal que investiga desvio de recursos na Petrobras, entra na lista das palavras duvidosas. “A imprensa grafa de todas as maneiras, com e sem hífen. O acordo não está claro. Quando duas palavras se juntam e dão origem a outra palavra, tem hífen. Mas, segundo a academia, quando perde-se a noção de composição e não se sabe a origem da palavra, como é o caso, não se usa o hífen”, explica Nunes.
Há dúvidas também em palavras usadas no meio jurídico, como hora extra, que pode ser usada com hífen, caso se entenda que é um termo único, ou sem ele, quando se entende o termo como uma hora extraordinária. No último caso, extra é característica da hora.
Outras dúvidas surgem no uso das letras maiúsculas ou minúsculas, como no caso de país. A OAB vai sugerir que a palavra seja grafada com a letra maiúscula quando se referir a um termo já citado. Por exemplo, se um texto mencionar Brasil e logo em seguida país, escreve-se País. A OAB também não está satisfeita com a eliminação do trema, que, segundo a entidade, é fundamental para definir a pronúncia de determinadas palavras. Os advogados não estão de enxeridos nessa história – a questão passa a ser competência da OAB na medida em que consta da Constituição Federal, devendo portanto ser protegida pela entidade.
O acordo ortográfrico foi assinado em 1990 com outros países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). No Brasil, o acordo foi ratificado em setembro de 2008 e as novas regras já estão em uso, embora em caráter não obrigatório, desde 1º de janeiro de 2009. Caso as sugestões sejam aceitas, serão levadas aos demais países que integram o acordo: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

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