Não está fácil pra ninguém. Com preços de produtos e serviços aumentando, classe média mudou muito
Não há instituto de pesquisa que desmintam o que a dona de casa vê no seu dia a dia. Os preços não param de subir, a ida ao supermercado está cada vez mais controlada, as saídas a restaurantes e passeios estão reguladas e a ordem agora é economizar. A inflação, que parecia estar controlada, volta a assustar, e dessa vez, a classe média.
Tudo aumentou. Mensalidade da escola, média de 10% entre janeiro e abril. Alimentos chegaram a subir 40%. Cursos de línguas, alta de 11%. No caso dos alimentos, a situação se complica quando esfria ou quando esquenta. Ou ainda quando chove. O tomate já é considerado o novo vilão. Mas os ovos também estão bem caros, e não por exigência das galinhas.
Há casos inevitáveis, como o transporte escolar do filho do casal que precisa trabalhar. A solução foi unir grupo de mães para levar filhos à escola e depois buscá-los. A tal carona solidária. Outras famílias deixaram de jogar fora material escolar mais antigo. Sempre há um lápis ou caderno que pode ser reaproveitado.
Planos de Internet via celular também afetam as despesas. Um deles, que custava R$ 99 e passou para R$ 135, está cortado da vida de Ana Paula Garcia: “Cortei tempo de ligação e de dados de Internet, para continuar pagando o mesmo, mas com um serviço pior”, diz ela.
Outro fator, além dos aumentos, está assustando a classe média: a possibilidade do desemprego. Com isso, menos idas ao salão de beleza, menos passeios nos shoppings, menos restaurantes em fins de semana. “Até há um ano a gente saía todos os sábados – diz Renato Xavier Bastos, gerente de uma indústria de autopeças. Agora, só em ocasiões especiais”.
Como os produtos eletroeletrônicos estão em praticamente todas as casas, até as despesas com energia elétrica pesam no orçamento. Tempo de televisão foi reduzido, aquelas horas intermináveis no videogame já são coisas do passado e tempo de chuveiro é controlado. Lojas estão vendendo aparelhos que desligam o chuveiro após o tempo programado como nunca. E aumentaram os pedidos para aquecedores a gás.
“Na prática, famílias com crianças em idade escolar percebem uma inflação mais alta quando ocorrem aumentos nas mensalidades escolares e famílias com idosos a percebem com os aumentos dos remédios e planos de saúde”, diz André Braz, analista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas.
Diversão só se for barata ou de graça. Quando o músico André Rieu veio ao Brasil pela primeira vez, o preço médio de ingressos para suas apresentações no Ibirapuera era de R$ 300. Na última vez, havia ingressos de R$ 80. Se não baixasse, corria o risco de tocar para as moscas, apesar da qualidade e versatilidade.
Mesmo quem costuma sair mudou o hábito. Como a bebida pesa muito na conta do restaurante, quem sai para jantar bebe em casa. “Quando vimos que uma caipirinha custava R$ 18, resolvemos sair de casa já prontos”, diz Paulo Roberto Mequilo, gerente de vendas revoltado com os preços e mais revoltado ainda por cobrarem 10% para o garçom. “O sujeito tinha o trabalho de abrir a garrafa e colocar copo na mesa e eu tinha de pagar 10% por isso. Nunca mais”.
A inflação oficial é uma história, a realidade é outra. Para quem ainda tem dúvida, basta conversar cinco minutos com quem vende ou produz alguma coisa; ou notar que há menos carros nas ruas, menos pessoas em festas pagas ou restaurantes. A miséria chegou, e pelo jeito vai durar.
Foto: Maioria de brasileiros está na classe média e economizando | DIVULGAÇÃO





