Os pátios das montadoras estão lotados; concessionárias reclamam da falta de crédito – não vendem
A região do ABC, próxima à Capital, é uma espécie de símbolo da indústria automobilística. Em suas cidades (Santo André, São Bernardo e São Caetano) concentra-se o grosso das montadoras, que empregam milhares de trabalhadores e rendem impostos às prefeituras. Mas a crise chegou por lá, e fazendo barulho.
A VW colocou oito dos seus treze mil funcionários em férias coletivas. A Mercedes Benz havia demitido 500, mas precisou voltar na decisão depois de uma greve daquelas. A General Motors colocou 400 funcionários em férias. A Ford já andou demitindo muita gente. Em todas elas há programas de demissão voluntária.
O problema parece estar longe da região de Jundiaí. Engano. Está mais perto do que parece. Muitas das indústrias locais fornecem peças às montadoras, e se elas não montam nada, não há razão para comprar. No mês passado, por exemplo, a Plascar colocou 100 funcionários em férias, e há rumores que serão demitidos na volta.
Nos últimos 12 meses, 37 mil postos de trabalho desse setor foram riscados do mapa. O setor é o chamado metal-mecânico, e compreende metalúrgicas, montadoras, fabricantes de autopeças e componentes eletrônicos. Na semana passada, o presidente da GM para a América do Sul, Jaime Ardila, disse que a crise atual é pior que a de 2008. “Hoje está mais difícil arrumar a situação”, afirmou.
Deve estar mesmo. De janeiro a abril, o licenciamento de carros novos caiu 20% – pior resultado nos últimos oito anos. 250 concessionárias já fecharam suas portas no Brasil inteiro, e a previsão é que até o fim do ano esse número chegue a 800. As montadoras afirmam que férias, afastamento sem salário e demissões são necessários para evitar coisa pior.
Em Jundiaí, quem trabalha em metalúrgicas e empresas que fornecem peças às montadoras está mais que preocupado. Nas fábricas, não faltam boatos sobre demissões e férias coletivas.
Uma curiosidade: os sindicatos instalados no ABC são contrários à política da equipe econômica do governo. . “Somos céticos às medidas de reajuste fiscal, afirma Rafael Marques, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A presidente não poderia iniciar seu segundo mandato tirando direitos dos trabalhadores. Os reajustes são uma pancada no trabalhador, que está sofrendo ao ter que pagar os aumentos na conta de energia elétrica e de água”, diz Rafael Marques.
Ainda mais curioso é o fato de as centrais sindicais instaladas no local serem, 35 anos depois das greves, contrárias às decisões tomadas pela equipe econômica do governo de Dilma Rousseff, sucessora e apadrinhada de Lula e que é filiado ao PT desde 1985. “A presidente não poderia iniciar seu segundo mandato tirando direitos dos trabalhadores.” Entre as medidas está o aumento do período de carência para quem pede seguro desemprego e a exigência de maior tempo de trabalho para receber abono salarial. “Os reajustes são uma pancada no trabalhador, que está sofrendo ao ter que pagar os aumentos na conta de energia elétrica e de água”, diz Marques.
O pessoal que manda nas montadoras está pessimista – calcula-se que neste ano a venda de carros novos será 18% menor que no ano passado. Sobre caminhões, mais pessimismo: redução de 41% nas vendas.





