Por causa da crise, artigos considerados “de luxo” diminuíram ou foram excluídos da lista de compras
Há quatro anos, o operário José Vicente Randon comprava um litro de uísque todos os meses. Nesse tempo também, seu amigo Ademir enchia o carrinho de salgadinhos para os filhos toda vez que ia ao supermercado. Aos domingos, carne de porco e cerveja à vontade. Esse tempo acabou.
Hoje, não só os dois operários citados acima cortaram despesas que consideram inúteis. O dinheiro não é suficiente para tais luxos. E esse corte está sendo sentido pelos supermercados, que não vendem tanto como antes. Arroz, feijão, macarrão ainda estão no carrinho, mas muita coisa foi substituída.
“Quem comprava contra-filé agora está levando frango e carne moída”, diz uma funcionária de supermercado. Foi o jeito que a dona de casa Maria Aparecida Lente encontrou para baratear as refeições. “Carne moída com batata não sai tão caro e rende mais”, justifica. Na realidade, todo mundo está mudando seus costumes.
Supermercados que têm marca própria já registram aumento na venda de seus produtos – e registram queda nos produtos similares de marcas independentes, mesmo famosas. A economia chegou também às bancas de frutas. Quem comprava kiwi, pêra, nectarina, está comprando banana e maçã, mais baratas.
Há uma pesquisa sobre isso, feita pela Dunnhumby, empresa de consultoria de mercado, presente no Brasil, e que tem entre seus clientes o Pão de Açúcar, a Coca-Cola e a Drogasil. Os salgadinhos foram abolidos da mesa por 30% dos entrevistados pela Dunnhumby. Quase 40% trocaram de marca de produtos de limpeza, preferindo os mais baratos.
A questão das bebidas é um pouco diferente. Pouca gente trocou de marca, mas a maioria diminuiu a quantidade – quem comprava dois litros de uísque por mês agora compra um. E olhe lá. Curiosamente, essa crise não afeta os dois extremos de consumidores: os abastados, que ganham muito, e os pobres de verdade.
Os de classe alta ainda não mudaram nada. Os de classe mais baixa continuam comprando a mesma miséria que compravam, e reforçando a despensa com a cesta básica. A classe média, que fica no estágio intermediário, é a mais afetada. Por causa dos preços (a inflação está perto dos 10%), muita gente voltou a pesquisar mercado por mercado antes de ir às compras. E só pega o que está em promoção.
A crise está também produzindo outro fenômeno – o consumidor está se parecendo mais com europeus e americanos, mais exigentes, e não se contenta mais em ter duas ou três opções na prateleira. E aí está a oportunidade para as marcas novas ganharem espaço no mercado.
Mas o sinal mais evidente da crise está na cena presenciada na semana passada dentro de um supermercado – uma mulher procurava uma “sócia” para dividir uma melancia. Metade para cada uma era a proposta. Conseguiu.





