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quarta-feira, 4 novembro, 2026

Ogni anno la stessa cosa

Estão ficando monótonas as coisas que se repetem todos os anos. Algumas são até modorrentas. Se alguém tivesse apostado dinheiro alto que no domingo e na segunda-feira os jornais iriam publicar fotos de gente chegando atrasada para o Enem, teria ganhado. É o tipo de cena que se repete sempre. E que vai se repetir enquanto existir Enem.
E isso relembra outras notícias que se repetem com tanta frequência, que o leitor tem impressão de estar com jornal antigo na mão. No próximo final de semana, por exemplo, os jornais divulgarão com pompa e circunstância que os cemitérios devem receber tal número de pessoas. Alguns, mais detalhistas, mostrarão os mesmos túmulos de sempre, de gente famosa ou milagreira.
Certamente haverá também visitantes reclamando do preço das flores, e floristas reclamando que as vendas não estão lá aquelas coisas. E algum repórter mais sentimental poderá colocar como título em tudo isso o inédito “A cidade chora seus mortos”. E nós, leitores, choraremos a falta de criatividade.
Outras notícias são garantidas nas épocas certas. Em vésperas de feriados prolongados há a inevitável “Estradas devem receber tantos mil veículos”, com o sábios conselhos para o motorista evitar os horários de maior movimento. Depois do feriado, o número dos mortos e feridos nos acidentes, cada ano maior.
No período de Quaresma, sempre haverá um solerte repórter para produzir pérolas, como o aumento do consumo de pescados, cujo ápice, se tudo correr bem, será uma manchete do tipo “Vai faltar peixe na Semana Santa”.
Talvez esteja faltando criatividade, novidade. Ou talvez seja comodismo – mais fácil fazer o óbvio, o ululante, do que se mexer em busca de coisas novas. Pra que procurar alguém para entrevistas, ou pra que percorrer o cenário da notícia se está tudo pronto na Internet?
A nós, leitores, cabe aguardar as próximas notícias. O que teremos no Natal? Que o comércio espera vender xis por cento a mais que no ano passado. Que o preço dos brinquedos está proibitivo. Que papai noel vai chegar em determinado shopping de helicóptero (papai noel moderno, diga-se de passagem).
E neste ano, pré-eleitoral, não faltarão futuros candidatos a vereador fazendo campanha de brinquedos, posteriormente distribuídos aos miseráveis a troco de uma promessa de voto. Como se vê, entra ano, sai ano, é sempre a mesma coisa. Em 1965 o velho Luigi já dizia: ogni anno la stessa cosa. Ed è anche.

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