Já tem empresa criando departamento só para cuidar dos distratos, uma situação absurda. Vendas são ainda as piores desde 2004
Um levantamento feito pela consultoria Fitch com nove empresas imobiliárias mostra que em 2015 foi um ano tenebroso para o mercado – de cada 100 imóveis vendidos, 41 foram devolvidos. Isso de janeiro a setembro. Essa quantidade, em termos de dinheiro, significa que quase cinco bilhões de reais voltaram ao estoque para serem novamente vendidos. São os chamados distratos.
“Historicamente, o porcentual de distratos girava em torno de 10%, um patamar saudável para a indústria”, diz Meyer Nigri, fundador da Tecnisa e vice-presidente da Abrainc, associação que reúne as 18 maiores companhias do setor.
Os distratos sempre existiram, mas eram exceção, pois o comprador que decidia se desfazer de uma unidade até a entrega das chaves em geral conseguia negociá-lo com outro interessado por um valor maior do que tinha desembolsado até ali.
Agora, vender “por fora” significa perder dinheiro, já que o preço do imóvel está em queda e as incorporadoras estão cheias de unidades para desovar. “Antes, o consumidor comprava um imóvel por R$ 100 mil na planta, vendia por R$ 150 mil e embolsava a diferença”, diz um executivo de uma grande construtora. “Agora, compra por R$ 100 mil, mas descobre, na entrega das chaves, que a incorporadora está vendendo por R$ 80 mil. É difícil sustentar o mercado assim”.
Um outro problema é a restrição do crédito. Bancos pensam duzentas mil vezes antes de abrir a gaveta, e esse é o momento principal, quando o cliente da construtora passa a ser cliente do banco, e a construtora recebe o grosso do dinheiro da venda. As chamadas entregas das chaves. Como os bancos engrossam nessa hora, a coisa se complica.
Mais complicação? Pois bem, advogados estão se especializando nisso. A Lei da Incorporação manda que o contrato de compra e venda de uma unidade imóvel é irrevogável e irretratável. Mas o Código de Defesa do Consumidor manda exatamente o contrário, e considera isso cláusula abusiva. Os compradores até agora têm levado vantagem.
Segundo o jornal Estadão, as incorporadoras estão em pânico com isso. Principalmente porque as sucessivas perdas nos tribunais coincidem com uma das crises mais graves do setor. Segundo Meyer Nigri, a Tecnisa terminou o ano com média de dez devoluções por dia útil. “Chegamos ao ponto de distratar o mesmo imóvel nove vezes, o que é uma aberração.” A empresa teve de destacar uma equipe só para cuidar desses casos. Ainda assim, o número de distratos aumentou 46% no terceiro trimestre do ano passado, na comparação com 2014. As desistências fizeram as vendas líquidas caírem de R$ 306 milhões para R$ 135 milhões no período.





