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sábado, 31 outubro, 2026

Duas senhoras provam que a vida começa aos 70

A idade não foi obstáculo para que elas formassem um duo para cantar música de qualidade para bons ouvidos

Elas têm histórias de vida diferentes. Daisy Deichmann, agora com 70 anos, carioca radicada em São Paulo desde criança; Rita Marleen, 73 anos, nascida em Barunschweig, perto de Hamburgo, no norte da Alemanha, morando no Brasil desde os 19 anos. Se conheciam há algum tempo por causa de aulas, e há dois anos formaram o duo The Old Ladies. O sucesso foi imediato.
Quando o pai de Daisy completou 100 anos, em 2013 – e ele continua na ativa – ela convidou Rita para cantar músicas do folclore alemão para o pai. Meses depois começaram cantar juntas, por brincadeira. Daisy resolveu ensaiar um musical com Rita, o Tudo Certo, onde duas artistas fazem um espetáculo que tudo dá errado. Resolveram levar o canto a sério.
Começaram com um repertório pequeno, escolhido a dedo. E os convites não pararam de chegar. “Ficamos especializadas em festas de bodas de ouro”, brinca Daisy. Cantar não foi problema. Além de boas vozes, elas vieram de uma época em que as escolas ensinavam canto orfeônico, música… e no caso de Rita, nem é preciso lembrar a vocação dos alemães para a música.
Agora, dois anos após o início, e com repertório maior e um programa na TV, pensam em gravar um CD, projeto que esbarra na burocracia, em alguns casos, e na má vontade em outros – precisam de autorizações dos compositores.
Interpretar músicas internacionais, clássicas, não é problema para elas. Daisy fala fluentemente português, inglês, francês e alemão, e se arrisca em italiano e espanhol. Rita fala alemão, português e inglês. A voz de Daisy, em certos tons, relembra Frank Sinatra; a de Rita, Edih Piaf. No repertório, há cinquenta músicas-solo para cada uma.
A alemã Rita mudou de país pela primeira vez aos 17 anos – foi morar nos Estados Unidos. Dois anos depois voltou à Alemanha, onde conheceu Erwin, um brasileiro descendente de alemães que lá estava a serviço da Volkswagen. Casou com ele, aqui no Brasil, e por aqui ficou. Dedicou parte da vida à criação dos dois filhos.
Trabalhou em empresas como secretária trilingue, servir de intérprete e tradutora e professora de alemão. Hoje mora em Atibaia, numa chácara, com o marido, companheiro de 53 anos de vida comum.
Daisy veio com a família para São Paulo aos seis anos de idade. Estudou – e para estudar até largou um emprego de guia turística numa empresa ligada à Lufthansa. Se formou em Filosofia, fez mestrado de História e Arqueologia. Trabalho em empresas multinacionais e resolveu ser arqueóloga de verdade.
No Sudão, passou tempo fazendo escavações e estudando a civilização Núbia, tão ou mais importante que a Egípcia. “Os núbios formavam uma etnia de negros altos e fortes, mas acabaram escravizados pelos egípcios”, conta ela. E no Sudão, em pleno deserto, viveu sua parte Indiana Jones, com 1,5 litro de água por dia. Para tudo.
Em Atenas, na Grécia, participou de uma expedição que recuperou a urna mortuária do soldado troiano Dexileo – a urna está no cemitério de Keramikos, em Atenas. O soldado, morto na Guerra de Tróia, foi identificado pelos paramentos existentes na urna.
“A idade não é problema, a música sempre traz alegria, conta Rita. Na Alemanha, havia o costume das famílias se reunir à noite para cantar. Todos tocavam algum instrumento. Éramos uma espécie de família Von Trapp” (referência à família retratada no filme A Noviça Rebelde).
De bem com a vida, Daisy resume o que as motiva tanto. “Quando nos propusemos a cantar, a Rita me perguntou – você tem noção da nossa idade, da nossa cara? E então pensei – vamos usar isso como trunfo”. Não só deu certo. Elas estão provando que a vida pode começar bem longe dos 18 anos.

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