Logo boa parte dos brasileiros estará de olho na televisão, acompanhando e discutindo marcas de atletas nos esportes olímpicos. Esportes que talvez nunca essa boa parte tenha ouvido falar. E a cada conquista de nossos atletas haverá festas, comemorações, rojões e bandeiras verde-amarelas nos carros.
Será um mês de anestesia, tal como querem nossos políticos. Assuntos importantes, como a roubalheira investigada na Lava Jato, serão esquecidos. Os jornais e revistas certamente se derreterão com nossas hipotéticas conquistas olímpicas.
Mas boa parte desses brasileiros continuará passando fome. Continuará sem atendimento médico; sem escolas para seus filhos, ou, quando houver escola, não haverá professores – e se houver, não serão os melhores, os mais preparados.
Continuará sufocado no transporte público, e mais sufocado ainda dentro de casa pela falta de dinheiro causada pela falta de empregos. O que importará, durante as Olimpíadas, é o orgulho nacional da Mãe Pátria, do Hino Nacional cantado a plenos pulmões. Depois tudo vai se resolver.
Sim, depois, porque aqui tudo se deixa para depois. Os mais crédulos encarregam a Providência Divina; os incrédutos, à sorte ou ao acaso, ou ainda à ordem natural das coisas. Esquecer-se-á que nossos nobres e impolutos parlamentares aproveitarão o mês de junho para descansar da árdua, penosa e hercúlea tarefa de roubar o erário. Terão férias, eufemisticamente chamadas de recesso. E receberão suas benesses.
É uma terra de irresponsabilidades, futilidades. Analise-se a grosso modo: a Net tem três canais do Sportv, quatro do ESPN (também dedicado ao esporte) e meia dúzia do Premiere: os canais abertos (Globo, SBT e Record) exibem novelas a rodo e programas inúteis e inócuos como A Praça é Nossa, Eliana, Hora do Faro, sem contar outros, como Domingão do Faustão, da Globo) e a eterna sofredora Sônia Abrão.
Perguntinha básica: o que isso acrescenta à vida de todos nós? Absolutamente nada. Vamos a outros detalhes: emissoras de rádio que dedicam seus horários ao esporte fazem transmissões antes do jogo, durante o jogo, depois do jogo; e ainda seus narradores e comentaristas ocupam horários na TV à noite para relembrar tudo o que aconteceu durante o dia.
Só com essa amostra dá para se ter uma idéia da avalanche de notícias sobre as Olimpíadas, do espaço que será dedicado aos atletas que representarão nosso país. E os problemas? Continuarão os mesmos, ampliados pelos gastos absurdos que serão feitos para que o mundo tenha tenha uma imagem razoável de nossa tribo.
Mas dirão que as Olimpíadas, tal qual a Copa do Mundo de 2014, deixarão um legado. Deixarão sim. Mais dívidas, mais roubalheira, mas político se enriquecendo à custa de obras superfaturadas, de gastos desnecessários. Hospitais e escolas continuarão do jeito que estão, ou até piores. Nós merecemos – nós escolhemos essa escória.





