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quinta-feira, 29 outubro, 2026

Editorial: Estamos próximos à barbárie

No final de semana passado, uma multidão foi a um estádio de futebol no Paraná para ver um evento do UFC (Ultimate Fighting Championship), que há quem considere isso um esporte. Quem foi pagou caro pelo ingresso, com direito a urrar sempre que alguém ficava fora de combate. E a televisão mostrou para todo o país o espetáculo, com patrocinadores de peso.
Segundo os organizadores, esse esporte é um misto de artes marciais. Traduzindo, é um vale tudo. E normalmente termina com gente sangrando, machucada. Há quem goste. Há quem aplauda. Isso nada mais é que uma reedição das arenas romanas, na época dos gladiadores que lutavam até a morte, dos infelizes jogados aos leões como se tivessem alguma chance.
A época dos romanos – e lá se vão mais de dois mil anos –  era de cultura bárbara. A morte era banalizada, coisa corriqueira. A violência se sobrepunha à razão. As lutas eram uma forma dos governantes, via de regra mais loucos que a própria loucura, divertirem o povo com espetáculos sangrentos e violentos. A máxima do pão e circo.
Dos romanos aos dias atuais o mundo parece ter evoluído, melhorado. Não andamos mais em bigas, nem temos no cavalo nosso principal meio de transporte. Trocamos as lanças e flechas por fuzis e metralhadoras em caso de guerra. Não adoramos o fogo, nem usamos espadas. Não usamos mensageiros – temos o email e outras tecnologias à disposição.
Procuramos instruir nossas crianças e jovens para que no futuro sejam alguma coisa (se bem que mal), ao contrário dos romanos, que mantinham o saber, a cultura, a instrução, restritos a um círculo aristocrático como forma de dominação das massas. Ou nosso sistema de ensino também está regredindo a essa época?
Mas parece que o período bárbaro está de volta. Essas lutas são testemunho disso. Como explicar que alguém tenha prazer em ver dois marmanjos se estapearem, se socarem, se agredirem até que um deles caia ou desista? Como explicar que alguém sinta prazer em ver alguém sangrando?
Pior de tudo, é que essa gente é bem paga para bater ou apanhar. Tratados como heróis pela medíocre imprensa, têm suas fotos estampadas em jornais e revistas; são entrevistados em programas esportivos da TV (outra perda de tempo) como se tivessem feito algo de útil.
Se isso continuar, logo esses pseudo espetáculos terão novos ingrediente. Quem sabe uma luta entre o homem e o leão? Havia um tempo em que a TV mostrava espetáculos de luta livre. Tudo pura marmelada. Divertia até. Mas era só encenação, tirada do ar por ter cansado, esgotado o filão. Agora, o filão não se esgota. Há trouxas suficientes para serem explorados.

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