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quinta-feira, 29 outubro, 2026

Editorial: Os extremos que chocam

Constantemente aparecem notícias sobre gente que protege animais, atos justos e solidários que devem servir como bons exemplos. Mas há exageros também nisso, e é o que faz desmerecer movimentos mais sérios. É o caso de uma canadense que resolveu salvar a vida de uma lagosta.
Essa canadense, que é vegetariana, viu uma lagosta viva à venda num supermercado de sua cidade e ficou comovida. Comprou a lagosta, levou-a para casa e depois viajou três mil quilômetros para devolvê-la ao mar. Parabéns! Mais uma vida salva.
Certamente essa mulher não se comove um momento sequer com os milhares de refugiados – adultos e crianças – que fogem da Síria por causa da guerra civil. Também não deve se comover ou mexer uma palha pelas milhares – talvez milhões – de crianças que morrem de fome em todo o mundo, principalmente em países africanos. O importante foi salvar a lagosta.
Poderíamos seguir seu exemplo. Se cada um de nós salvasse uma abelha por dia seria ótimo. As abelhas estão se extinguindo aos poucos, e sem elas poderá faltar alimentos. E aí quem vai morrer somos nós. De fome. Mas a canadense queria publicidade, queria ficar conhecida. Divulgou esse ato inútil em redes sociais. Talvez seja candidata a alguma coisa em sua cidade.
Por aqui também temos gente que exagera na dose. Há até vereador defendendo animais, não as pessoas. Há gente que gasta rios de dinheiro comprando ração pra gato e cachorro, mas não compra um litro de leite para uma criança subnutrida, carente. Questão de opção.
Temos gente que trata cães e gatos como filhos, mas maltrata pais e avós. Para esse tipo de gente, idosos são inúteis. Se morrerem, não farão falta. Nem se lembram que foram criados por esses que hoje estão velhos. Sequer imaginam o sacrifício que eles fizeram para que estudassem, se alimentassem e se vestissem. O importante é o animal.
Essa inversão de valores choca. Até hoje ninguém conseguiu entender a mente humana, tão pródiga a certas causas, tão ausente às coisas mais sérias e urgentes. Mentes que se dão ao luxo de pagar fortunas por filhotes de animais, mas que se constragem ao gastar alguns reais para comprar um bengala para um pai ou avô idoso.
E essa cultura de salvar animais se alastra como praga. É moda. Mas seria mais coerente salvar o bicho homem. Mas, como alguém já explicou, a caridade é algo que dá paz à consciência perturbada. É como um reparo às coisas mal feitas na vida. Se alguém se enquadra nesse quesito, aproveite – o Procon vai promover sua caminhada anual e pede, como doação, um quilo de ração para gato ou cachorro. Definitivamente, o mundo não é mais o mesmo.

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