Nos últimos tempos não se fala em outra coisa que não seja crise. Coisa apocalíptica, de infartar qualquer economista. Não dá pra negar que existem problemas, mas se observarmos as coisas com um pouquinho mais de atenção haverá duas conclusões possíveis.
A primeira: não é crise. É uma acomodação no mercado, os preços voltando à realidade, ao valor real e não os do mundo dos sonhos. A segunda: crise é conversa mole, desculpa para incompetência, ganância ou inconformismo.
Na primeira hipótese: os preços de imóveis andavam nas alturas. Em alguns bairros, considerados nobres, qualquer terreno padrão (250m²) chegava a custar um milhão de reais. Sim, um milhão de reais era a pedida. Qualquer saleta comercial era alugada por preços estrambólicos, impossíveis de serem pagos.
Hoje é fato mais que notório que o preço dos aluguéis despencou, que o preço de venda é negociado, e que, se não houver descontos, nada de negócio. Na Capital, por exemplo, já há imóveis com 30% de desconto. O mercado de carros segue a mesma tendência. Descobriu-se que o comprador está ficando cada dia mais raro.
E aí entram outros fatores. Financiamento é um deles. De cada dez fichas enviadas ao banco ou à financeira, onze são reprovadas. Bancos estão ariscos na concessão de crédito. Não levam mais em conta o tempo que o interessado tem de empresa nem se é um sujeito estável em todos os sentidos. Só enxergam a capacidade de pagar e nada mais.
Na segunda hipótese: nunca se vendeu tanto como agora, desde que o pagamento seja feito em dinheiro ou em cheque. Melhor em dinheiro, cheque ainda deixa rastros. Menos gente está depositando seu dinheiro em bancos – melhor guardar embaixo do colchão.
O motivo é único – não deixar pistas para a Receita Federal. Pagamento em dinheiro, sem nota fiscal, tornou-se tão comum que tem-se a impressão de estarmos voltando no tempo. Pode até ser. Quem duvidar que faça a experiência: vá à loja, negocia o preço, avisando que o pagamento é à vista e em dinheiro. O desconto é surpreendente.
Mais surpreendente é o documento do negócio. Nada de nota fiscal. O que parece ser uma nota não passa de Orçamento, Romaneio ou Venda Simulada. Com número e série e até cálculo dos impostos que em tese deveriam ser pagos.
O porquê de tudo isso é óbvio. Ninguém aguenta mais pagar tanto imposto para sustentar a mordomia de um bando de safados que se apossou do poder. A cada nova notícia de corrupção na TV ou no jornal, mais motivos para sonegar. A avidez por dinheiro, por parte do governo, é enorme.
E são nossos políticos que justificam a situação de crise. São eles que afirmam diariamente que a Previdência Social está quebrada, e que a culpa é dos aposentados. São esses canalhas que sugam o suor alheio. São parasitas da pior espécie. Pregam sacrifício geral, sem abrir mão de seus gordos salários, de suas absurdas mordomias e de seus privilégios como autoridades.
Em 1792, Tiradentes foi enforcado por pregar o não pagamento de um imposto cobrado pelos portugueses. Era o quinto, ou seja, 20% sobre a produção. Só 20%. Hoje, só o Imposto de Renda fica com 27,5%. ICMS outros 18%. INSS, 11%. Como não há mais heróis como Tiradentes, o povo encontrou sua maneira de tentar segurar a onda dos políticos canalhas.
O efeito está aí. Nos feriados prolongados, todo mundo viajando e gastando. Nas lojas mais populares, negócios a mil, pagos em dinheiro. A informalidade é muito maior que se imagina. Nos governos, o efeito também é visível. Com menos dinheiro de impostos, pipocam as crises de verdade.
Já há estados e prefeituras sem dinheiro para pagar salários. Já há fornecedores de estados e prefeituras se queixando que não recebem. E vai ficar pior.





