As pessoas estão ficando surdas, e isso é constatação dos médicos e outros especialistas. Testes de audiometria reprovam mais gente nova do que os mais velhos. E isso, como todas as coisas, tem explicação – as causas dessa consequência. Há barulho demais afetando as pessoas, sem que ninguém se mexa para impor um pouco de silêncio.
Adolescentes a-do-ram ouvir música em seus celulares, e com fones de ouvido. Mesmo com os alertas dos próprios celulares sobre o nível de decibéis, esses adolescentes abusam do direito ao volume. Prevê-se que antes dos 30 anos estarão com a audição comprometida.
Ônibus e caminhões – principalmente os urbanos – espalham barulho por onde passam. Fazem rugir seus motores, esticando marchas e fazendo fumaça. Tornou-se comum esse comportamento imbecil de motoristas ditos profissionais.
Campeões da imbecilidade são os motoqueiros – e favor não confundir com motociclistas – que tiram o miolo do escapamento de suas motocas para fazer barulho mesmo. A intenção é explícita: fazer barulho. São imbecis que sentem prazer em acelerar o quanto podem para serem notados, ou mesmo serem acintosos para quem deseja um pouco de silêncio.
À noite, intrépidos vigilantes noturnos, fantasiados de Rambo, usam ilegalmente sirenes durante seu patrulhamento. Acionam suas sirenes, como se policiais fossem, como se estivessem a caminho de algum flagrante. Tudo para avisar a bandidagem que estão chegando; ou os que os pagam que estão trabalhando. Começam mais cedo agora. E terminam mais tarde.
Jovens (de novo eles) equipam seus carros com potentes caixas de som, amplificadores e toda parafernália possível para mostrar a todos que tipo de música estão ouvindo. Passam impunes nas ruas, a qualquer hora, exibindo suas gravações, todas de péssimo gosto e reveladoras de seu grau de idiotice.
O Conselho Nacional de Trânsito, por sinal, adotou medidas mais severas contra esse tipo de coisa. Só adotou. Ninguém colocou em prática. Como também são ignoradas outras medidas. Motocicleta barulhenta, por exemplo, pode ser apreendida. Continua sendo proibido alterar as características originais do veículo. Carros rebaixados, os chamados tunados, ídem.
Não há limites para o barulho. Carros de som passam todos os dias, em todos os lugares, anunciando lojas, açougues, bailados e outras festas. Caminhões de gás não tem pudores em ligar suas músicas nojentas para avisar as donas de casa que estão em sua rua – mesmo que a rua tenha gás encanado servindo todas as casas. O que importa é avisar que o gás está passando.
Há até carrinhos de churros anunciando a gordureira nos começos de noite, convidando os incautos a substituir o jantar pelo doce. Todos diet, garantem. Pedreiros substituíram há muito tempo suas ferramentas de vídia pelas infernais máquinas do tipo makita, que além de barulho fazem muito pó.
Ninguém faz nada. Ninguém toma qualquer providência. Ninguém se incomoda. O barulho se tornou tão banal como sonegar impostos, como notícias sobre corrupção no governo ou prisão de algum figurão da República. E nem se leva em conta os latidos de cachorro, as furadeiras presentes em todas as casas e apartamentos ou a gritaria de donas de casa com seus filhos.
Fazer barulho tornou-se um hábito. Reprovável, anti-social, mas um hábito. Um dia, todos se encontrarão em algum lugar, unidos pela mesma surdez. Boa sorte.





