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quarta-feira, 14 outubro, 2026

Editorial: Mais um mês de rotina

Dezembro chegou, e com ele a rotina dos últimos quase todos os anos. Pode-se dizer até que dezembro é o mês da hipocrisia. Ou da falsidade. Ou da ilusão. Nada como um dezembro para curar as amarguras de um ano cheio de encrenca. Dezembro, acima de tudo, é o único mês de agenda previsível, marcada e ensaiada à exaustão.
Primeiro: as lojas vão abrir até às dez da noite. Não todas, porque comerciante que se preza reclama de falta de segurança. Deveria reclamar de falta de clientes, aqueles que fogem dos preços altos, da mercadoria de segunda e dos juros escorchantes do crediário. Essas quatro horas a mais de funcionamento compensam? A maioria acha que sim.
Segundo: as cenas serão comuns – famílias inteiras passeando, crianças pedindo bala para o papai noel de plantão na loja, a mãe perguntando preço de tudo e o pai de cara fechada, louco para voltar para casa e não gastar seu rico dinheirinho – se é que a empresa pagou o 13º.
Terceiro: trânsito infernal no Centro. Nessa época parece que todo mundo precisa ir ao Centro de carro. Há justificativas. Alguns alegam que é para carregar as compras. Outros que moram longe demais para esperar o ônibus. E os imbecis, que lotam seus carros velhos super-híper equipados para paquerar. Sim, ainda há imbecis que acreditam que uma jovem dê corda a três ou quatro idiotas no mesmo carro, ouvindo música (?) no último volume.
Quarto: restaurantes se enchem nessa época do ano. São as confraternizações corporativas, mais conhecidas como “festinha da firma”. Nelas, a gritaria é geral, os discursos aplaudidos e a troca de presentes do amigo secreto causa choradeira. Todos ficam emocionados. Algumas até demais. Falsidade latente: pessoas que se detestam nessa hora se abraçam e trocam palavras de incentivo.
Cena comum nessas confraternizações é a mocinha que curte paixão reprimida pelo colega de trabalho. Depois de uma caipirinha ou uma cerveja a língua se solta, a emoção aflora e pimba! Ela se declara. Ele, envaidecido, pode retribuir ou não. Se esnobar, vai provocar chororô. E ela irá chorar no banheiro, sempre acompanhada de fiéis amigas.
Quinto: o aparecimento de figuras extravagantes nos lugares mais movimentados, como ruas centrais e shoppings é uma certeza. Houve um tempo em que todos criticavam. Hoje todos riem à vontade vendo essa gente sem noção. Vale pelo folclore.
Sexto: na semana que antecede o Natal a coisa piora. Supermercados ficam lotados com a invasão da plebe em busca de cerveja e carne para o grande almoço de família. E supermercado virou programa de família, onde sobram crianças correndo e pedindo para comprar coisas de seu gosto. O fato se repete, com menor intensidade, na semana seguinte, com os preparativos do Ano Novo.
Sétimo: O almoço de Natal em família. São ótimos, todo mundo se vê, coloca as notícias em dia, troca presentes, faz fofocas quando for o caso ou houver motivo. O problema vem depois – quem vai lavar a louça? Quem vai limpar tudo? Quem vai colocar o lixo na rua? E o caminhão do lixo, vai passar?
Se for churrasco, aí sim que o bicho pega. Antes a maior preocupação dos organizadores desses churrascos era a qualidade da carne e a quantidade de bebida. Hoje é o som. E precisa ser som alto, estridente, barulhento. E sempre haverá o engraçadinho que vai colocar a música da Simone pra tocar. Tem quem goste.
O dezembro é tão previsível que agências de viagem poderiam se reinventar e lançar uma promoção e tanto para o mês. Promoção destinada a quem quer sair da rotina dos quase últimos anos. A melhor sugestão é uma viagem. Para Marte.

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