Tornaram-se comuns em jornais, rádios e tevês a menção de crimes sem citar seus autores, suas vítimas e até mesmo os lugares onde aconteceram. Tudo ficou muito vago, em alguns casos por conta de normas internas, noutros por falta de informação e noutros ainda por medo.
O caso mais escabroso desse jornalismo manco, feito pela metade – ou até menos – está na maior emissora de televisão do país, a Globo. Mais de cem presidiários já foram mortos com requintes de crueldade desde o começo do ano, e em nenhum momento a Globo citou o Primeiro Comando da Capital (PCC), nem o Comando Vermelho (CV) e menos ainda a Família do Norte (FDN).
Sabe-se que dentro da Globo há uma espécie de regra não escrita desde os anos 1980, quando o Comando Vermelho começou aparecer no noticiário: não citar o nome para não lhe dar publicidade. A Globo não fala, mas as outras falam. E não há criança que não saiba que existem PCC, CV e agora a FDN.
Esse costume de esconder parte da notícia en nome sabe-se lá do que se espalhou. Alguns jornais, principalmente os mais provincianos (pra não dizer medrosos), dão notícias tão mancas que a impressão que passam é que a criaram – na falta de alguma coisa mais forte, inventa-se um fato.
Notícia comum: Um aposentado de 70 anos tentou roubar uma peça de carne num supermercado e foi preso pelo segurança. Tá, e quem é esse aposentado ladrão? Em qual supermercado ele praticou o furto? Nada de informação. Tudo muito vago, superficial.
Tem-se também a impressão que o clima em algumas redações deve ser o de terror – caso citem o PCC, este vai enviar seus membros para dar uma lição no ousado jornalista que ousou publicar tal notícia. É exatamente o contrário – talvez o PCC ainda lhe mande flores ou algum presente em retribuição à citação.
Mas sempre ocorre um fato curioso, uma espécie de efeito inverso ao pretendido pelos “gênios” que adotam tal prática. O aposentado de 70 anos logo terá seu nome divulgado pelos fofoqueiros de plantão; os funcionários do supermercado, vítima do aposentado, comentarão o fato, e em pouco tempo todos serão conhecidos.
O fato da Globo e seus idiotas seguidores esconderem o PCC, o CV e a FDN produz efeitos piores. Todo mundo sabe que dentro e fora das cadeias há disputa por poder, negócios e territórios entre essas facções. Todo mundo sabe que o Comando Vermelho é controlado por Fernandinho Beira-Mar, mesmo preso; todos sabem que Marcola, de dentro de um presídio de segurança máxima, controla o PCC.
Por que então se insiste em esconder esse tipo de notícia? Que não se alegue ética, prudência ou coisa parecida. A maioria dos jornalistas admite um único fato passível de ser mascarado ou escondido: o suicídio. Mas há razões para isso. Está mais que provado que notícias sobre suicídio incentivam pessoas já propensas ao mesmo ato, que podem enxergar na notícia uma motivação maior – se fulano teve coragem, por que eu não?
Mas já começa dar nojo esse tipo de notícia. De “um autônomo de 40 anos foi preso por dirigir embriagado”. De “uma cabeleireira de 30 anos agrediu uma cliente de 25 e ambas foram parar no distrito policial”. Essas pessoas têm nome e endereço. Não justifica esconder ou tentar esconder.
Se essas redações continuarem nesse ritmo, logo não haverá necessidade de repórteres. Bastará ao jornal contratar um escritor com alguma criatividade para despejar em suas páginas histórias de todo tipo, sem qualquer consequência ou risco. Serão os famosos anônimos, noticiados também em anônimos jornais. Uma pena.





