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Márcia Mazzei

Fui logo ali, (re) aprender a ser feliz

Era um desejo antigo e por força maior ficou adormecido e esquecido num canto qualquer do meu inconsciente emocional. Agora o Universo decidiu conspirar e me concedeu alguns dias para ‘trocar a roupa da alma’. Não poderia ser um vestido qualquer, afinal, nem me lembro mais quando foi a última vez que o mundo se abriu assim diante dos meus olhos.

Encafifei, como uma criança marrenta, que o destino não poderia ser outro: é Salvador, oxente. Que outro lugar, senão a terra de Caymmi, você consegue a proeza de deixar todas as suas preocupações, cansaço e pessimismo tão logo deixa o aeroporto internacional Antônio Carlos Magalhães e atravessa o túnel de bambu. Só quem já foi a Salvador entenderá.

Mas a magia da Bahia vai além. É como se navegasse e presente estivesse em cada onda do mar. Há quem diga que todo cidadão soteropolitano é filho de Oxúm ou protegido por Nossa Senhora da Conceição. Sim porque em Salvador enquanto uma missa é celebrada na Igreja de Sant’Ana, ao lado, o templo de candomblé se prepara para o ritual de oferenda à Yemanjá.

O respeito pelas diferentes crenças torna aquele lugar blindado de uma energia que desconfio só naquele chão de uma quentura sem igual você vai encontrar. Há quem acumule dinheiro, projetando um futuro de riquezas. O bom baiano coleciona axé, e nem sei se a palavra tem plural. Mas sei que sobra uma força sagrada, uma energia controlada pelo sorriso branco, sempre pronto para te receber e (re)lembrar que ser feliz é simplicidade.

E assim o baiano vai te ensinando como a felicidade cruza contigo a cada segundo do seu dia. A cozinheira da pousada onde estive demonstra, entre uma tapioca e um estudante (doce típico da Bahia), que é possível lavar as xícaras, servir hospedes gringos chatos e brincar com o resto da rapaziada com quem vai dividir o plantão de Réveillon.

Sigo para a praia. O termômetro marca uns 40ºC, mas a sensação térmica deve ser a mesma da sucursal do inferno. Chego, me acomodo a cadeira, na ala VIP, bem de frente ao mar. Uma cena digna de classe média baixa. Bom, pelo menos por alguns minutos deixa eu me iludir.

Enquanto viajo na minha pseudo riqueza, Amarildo, o vendedor de cadeira, sombreiro, cerveja, água de coco, acarajé e afins; desfila para cima e para baixo com uma meia de borracha que jura não queima seus pés.

A minha felicidade é efêmera, está no plano da minha imaginação e bem provavelmente tem vida curta. Já Amarildo, entre um malabares e outro com a bandeja de acarajé, dá uma paradinha para cantar e dançar o último hit do Carnaval da Bahia 2019 e assim, segue felizão porque isso é tão essencial quanto comer, beber e dormir.

Termino o dia diante do pôr-do-sol. Para mim aquela paisagem é digna de contemplação. Para quem vive ali não necessariamente, mas é. Um bom baiano, para, senta na mureta à beira de toda àquela belezura e sabe-se lá para onde vão seus pensamentos. Dali só sai quando o último raio de sol desaparece no horizonte e leva algo que não deveria mais estar mais ali (essa eu aprendi recentemente).

A viagem valeu. Não poderia ter escolhido roupa melhor para vestir minha alma. Reencontrei a felicidade, me apaixonei por um povo que ri por nada. Me lembrei que quanto menos temos, mais felizes somos. Estamos tão preocupados com o a roupa que vestimos e uma das maiores felicidades sentimos quando estamos sem roupa. Seja feliz! Vá a Bahia!

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