Pelos últimos resultados já deu para perceber que assim como os adultos, crianças expostas ao vírus podem apresentar os sintomas da covid-19. A boa notícia é que a maioria dos casos parece não ter gravidade.
Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China apontam que jovens com menos de 19 anos respondiam por 2% dos 72,3 mil casos de covid-19 identificados ainda nos primórdios da pandemia, em 20 de fevereiro. Já nos EUA, um estudo com 508 pacientes não identificou nenhum caso fatal entre crianças, que respondiam por menos de 1% das internações no grupo estudado.
É bem provável que mais crianças estejam infectadas do que os números levam a crer, uma vez que elas não têm sido testadas em grande escala. Ou seja, é possível que os dados indicando baixo efeito em crianças estejam enviesados pelo fato de que os testes, em geral, têm sido aplicados preferencialmente em pessoas que chegam aos hospitais com sintomas mais graves.
O novo coronavírus afeta de forma diferente as crianças?
De acordo com a literatura médica global já existente sobre os coronavírus, mesmo crianças com problemas graves, sob terapias imunodepressivas ou em tratamento contra o câncer, são muito menos afetadas do que os adultos, em especial os mais velhos.
Um estudo chinês sobre a covid-19 em crianças mostra que pouco mais da metade tinha sintomas leves de febre, tosse, dor de garganta, nariz escorrendo, dores no corpo e espirros. Um terço desenvolvia sinais de pneumonia, com febre constante, tosse e chiados no peito, mas sem a falta de ar e a dificuldade para respirar vistas nos casos mais severos da doença.
Além disso, as crianças (com covid-19) são predominantemente afetadas nas vias aéreas superiores (nariz, boca e garganta), então desenvolvem sintomas parecidos aos de resfriados, em vez de o vírus conseguir acessar suas vias aéreas inferiores – ou seja, o pulmão -, causando a pneumonia e os sintomas potencialmente fatais que vemos em adultos.
É fundamental lembrar, porém, que ante o altíssimo número de infectados no mundo, mesmo porcentagens pequenas resultam em um alto número absoluto de casos.
Por que crianças se saem melhor?
Uma das possibilidades é de que o vírus dependa de uma proteína na superfície da célula (o chamado receptor) para entrar na célula e começar a causar problemas.
O novo coronavírus parece usar o receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2) para esse propósito. Pode ser que as crianças tenham menos receptores de ECA-2 em suas vias inferiores (pulmão) do que nas vias superiores, e por isso as vias superiores (nariz, boca e garganta) serem mais afetadas.
Essa hipótese, se confirmada, explicaria por que crianças infectadas com o coronavírus parecem desenvolver mais sintomas de resfriado do que de pneumonia.
Pode haver outra explicação. Não é tanto que as crianças não estejam sendo afetadas, mas que algo muda na pessoa que, quando ela envelhece, aumenta a probabilidade de ela ser afetada.
Atribui-se também ao envelhecimento do sistema imunológico (imunossenescência), que torna o corpo menos capaz para enfrentar novas infecções. No entanto, não se vê a imunossenescência em jovens adultos, e está claro que até mesmo jovens adultos têm um risco maior do que as crianças de desenvolver graus severos (da covid-19), então essa provavelmente não é a resposta completa.





