Todas as entrevistadas afirmam o mesmo – antes do isolamento social o negócio já não ia bem. Agora piorou de vez.
A situação econômica e o desemprego já afastavam a clientela há meses. Hoje elas só não pararam com o negócio porque se adaptaram. Algumas baixaram o preço do programa; outras oferecem promoções. E em alguns lugares é oferecido álcool em gel para desinfecção das mãos.
Antes é preciso esclarecer algumas coisas. Hoje não são mais chamadas de prostitutas – são garotas de programa, ou GPs. O perfil também mudou. Há muitos anos se prostituiam somente as que não tinham estudo ou profissão.
Era como uma necessidade. Hoje muitas são bem instruídas, conscientes e sabem que a carreira é curta, e por isso tratam de aproveitar o máximo.
Prositituir-se não é crime. Crime é explorar a prostituição. É o chmado lenocínio, previsto no Código Penal. Coisa que parece estar em desuso, tamanha a quantidade de casas de massagens – ou clínicas – existentes na cidade. Poucas trabalham por conta própria. Nenhuma usa o próprio nome, e nos anúncios na internet discorrem sobre suas habilidades.
“Do meio do ano passado para cá o movimento já havia diminuido – diz Estela, no ramo há cinco anos. Muitos homens perderam emprego, e como a situação apertou, cortaram a despesa com o lazer”. Ela diz que há dois anos atendia pelo menos dois clientes por dia – hoje não passa de dois por semana. Para piorar, Estela trabalha numa casa de massagens e precisa dividir o que ganha com a dona do negócio, que antes era conhecida como cafetina.
E por que não trabalhar por conta? “Na casa temos mais segurança, explica Estela. A simples presença de algumas mulheres intimida homens mais violentos ou mal intencionados”. Nâo é o que pensa Carolina, no ramo há um ano e meio, que resolve arriscar. Carolina trabalhava como operadora de telemarketing, e há dois anos perdeu o emprego. Com uma filha pequena, e sem conseguir nova ocupação, sobreviveu com o seguro-desemprego.
Levada por uma amiga para uma casa de massagem, começou sua vida de garota de programa. Ficou dois meses. “Era obrigada atender todo tipo de homem pela dona da casa. Tinha nojo de muitos, e ainda por cima dava metade do que eu ganhava para ela”, explica. Carolina saiu da casa, pediu a uma amiga para fazer fotos sensuais – com o próprio celular – e anunciou suas qualidades num site. A freguesia apareceu.
“Mas agora está difícil – diz ela. Muitos dos que foram meus clientes estão trabalhando em casa, e com isso não têm desculpa para sair ou ou chegar mais tarde. O que aparece agora é a molecada que tem algum dinheiro, mas moleque dá muito trabalho”. Carolina diz que nesse seu trabalho independente só teve problema uma vez. “O sujeito estava tão bêbado que não conseguia nada e não quis pagar. Não tive dúvida. Armei escândalo e o pessoal do motel apareceu. Consegui receber”.
Jenifer se considera uma veterana. Está há dez anos no ramo. Diz que faz qualquer negócio. “Nunca me apertei. Já fiz ponto na rua, já trabalhei em casa de massagem, já fui independente”, conta. Mas garante que nunca viu uma crise como atual. “Cheguei a ligar para cliente, que sei que está trabalhando na empresa, e nada. Os que estão trabalhando em casa nem pensar. Dá da mulher do cara atender e aí eu complico a vida dele”.
Josi é um caso diferente. Formada em psicologia, diz detestar ser garota de programa. Só entrou no ramo há três anos por não encontrar emprego. “Diziam que eu não tinha prática em alguns casos; em outros, que eu era qualificada demais para a vaga. Cheguei a fazer ficha para ser caixa em supermercado e não fui aceita. Resolvi ir para o crime”.
Crime, no caso, o mundo do sexo. Com uma amiga recém divorciada, e com outra, separada há anos, alugou uma casa e passaram a atender a clientela. Os anúncios prosperaram na internet, e elas ganhavam dinheiro. Eram sócias, e cada uma tinha sua clientela. “A gente até incrementou a casa, conta ela. Colocamos geladeira com cerveja, televisão na sala, estava uma maravilha. Mas agora, com esse issolamento social, nosso sonho acabou”.
Do começo do mês até o feriado de Tiradentes Josi não atendeu ninguém. Sem dinheiro, procurou a imobiliária para entregar a casa e foi morar com uma irmã, de favor. “Como garota de programa já corremos riscos suficientes de contrair alguma doença. Mas agora, com esse coronavírus, os riscos aumentaram, e ninguém se aventura. Resumindo: nós falimos”.
(*) Os nomes aqui apresentados são os que elas usam no exercício de seu trabalho





