As Testemunhas de Jeová são uma organização cristã internacional criada nos EUA no fim do século 19, que baseia suas crenças numa interpretação própria da Bíblia
E. B. e A. P. estão entre as seis ex-Testemunhas de Jeová que disseram à BBC News Brasil terem sido coagidas a procurar a igreja — e não a polícia — quando eram vítimas de algum ataque. Elas afirmam que a organização teria acobertado os crimes e protegido predadores.
Parte dos crimes, dizem, foram cometidos por “anciãos” — homens respeitados dentro da igreja, que têm privilégios e atuam como conselheiros e juízes.
A BBC News também teve acesso a documentos internos da organização e conversou com quatro ex-anciãos que relatam que as ordens que recebiam eram para lidar com problemas internamente, evitando procurar autoridades a todo custo.
As acusações de acobertamento de abuso sexual e violência contra a mulher dentro do grupo estão sendo investigadas pelo Ministério Público de São Paulo, mas as denúncias não se restringem ao estado. Há vítimas também no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.
A associação das Testemunhas de Jeová do Brasil diz que “abominam qualquer tipo de violência, inclusive a sexual e a consideram como um crime” e nega que haja qualquer tipo de acobertamento de crimes. A entidade diz que também que os casos específicos investigados pelo Ministério Público estão sob segredo de Justiça.
“Eu não tive escolha sobre entrar nessa seita ou não”, diz a cuidadora de idosos E. B., de 37 anos, que foi educada como testemunha de Jeová desde criança. Sua mãe era da religião e E.B. cresceu acreditando nos seus ensinamentos. “Eles falam muito do Armagedom, então você cresce morrendo de medo do fim do mundo. Também fazem um terror sobre as pessoas que são de fora, que eles chamam de pessoas do mundo, dizem que aqui fora você vai ser maltratado, que tudo é horrível, que as pessoas vão se aproveitar de você”, conta.
Dentro da igreja, os líderes são chamados de “anciãos”: são homens com cargos de liderança, não necessariamente idosos. “Eles são vistos como puros, respeitáveis, nunca que você vai imaginar que eles vão abusar de uma criança”, diz E.B.
Foi por isso que a mãe da menina confiou quando um ancião de uma das congregações de Testemunhas de Jeová de São José do Rio Preto pediu para levá-la para a sede da entidade na cidade, conta. Ela tinha 12 anos e iria ser questionada sobre a fé, como parte da preparação para seu batismo. As perguntas normalmente são feitas com várias crianças ao mesmo tempo.
“Eu achei que quando a gente fosse chegar lá no salão ia ter mais gente, mas estava só eu e ele. Ele me levou sozinha para uma sala e trancou a porta”, diz.
“Ele começou a falar do meu corpo, falar que já fazia tempo que ele me notava, que ele percebia que eu não usava sutiã. Achei muito esquisito. Ele perguntou se eu já tinha tido relações, se eu já tinha visto um pênis. E começou a falar que o dele era maior que a média, e colocou para fora, mostrou pra mim”.
“Eu era uma criança, não sabia nada dessa parte sexual. Eu fiquei muito assustada, muito envergonhada. Mas ao mesmo tempo eu achava que aquilo fazia parte… Eu não estava entendendo. Achei que ele estivesse fazendo algum teste comigo”. O homem então se colocou atrás da menina e começou a tocar nos seus seios e se esfregar nela, diz E.B.
E.B. diz que falou sobre o episódio para a mãe, apesar do abusador dizer a ela para não falar nada para ninguém. “Ela não falou nada para mim. Para ela, o que eles falavam era como se fosse Deus falando, então ela não confrontou ele.”
Quando ouviu que o mesmo homem havia “mexido” com outra pessoa no Salão do Reino (como são chamados os locais de encontro dos religiosos), E.B. resolveu contar para outros anciãos o que tinha se passado.
“Eles ficaram bem desconcertados, mas falaram para eu deixar nas mãos de Jeová, que Jeová ia resolver esse assunto. Que era para eu orar, perdoar ele pelo que ele fez e que Deus consolasse meu coração” diz ela. “E ainda pediram para não comentar com mais ninguém porque ele tinha esposa e filha, porque isso podia virar caso de polícia e a gente evita que vire caso de polícia”.
Nos documentos oficiais da Associação das Testemunhas Cristãs de Jeová, que tem sede nos Estados Unidos e tem diversas publicações e comunicados enviados para as filiais no mundo, há orientações explícitas para que anciãos resolvam quaisquer problemas entre membros internamente.
Como explicam esses documentos, pessoas acusadas de cometer crimes e irregularidades são julgadas por anciãos em uma reunião chamada ‘comissão judicativa’. Mas para que uma acusação gere uma comissão — incluindo casos de abuso sexual de crianças ou violência contra a mulher — exige-se duas testemunhas.
Tudo isso está detalhado no livro dos anciãos, que é acessível somente aos líderes e não é compartilhado com os outros fiéis.
As cartas sobre pedofilia repassadas pela sede para as filiais dizem que é possível manter um abusador na congregação desde que ele tenha se arrependido. “O departamento de serviço jurídico vai dar orientações quando uma comissão judicativa conclui que alguém culpado de abuso sexual de menores está arrependido e pode permanecer na congregação”, diz uma carta de 2016.
E. B. diz que tentou falar sobre o abuso que sofreu quando criança para outros anciãos, de uma congregação diferente, depois de adulta. Conta que novamente ouviu que não deveria procurar as autoridades. Se o fizesse, diz ela, corria o risco de ser expulsa da organização.
“Eles têm essa postura de ser um outro governo, um mundo paralelo”, diz a brasileira Vana Lopes coordenadora do grupo Vítimas Unidas, que levou parte das acusações da abuso dentro das Testemunhas de Jeová ao conhecimento do Ministério Público de São Paulo, que investiga os casos. Desde que foi vítima de um abuso pelo médico Roger Abdelmassih, Vana atua voluntariamente para ajudar vítimas de outros casos como o dela chegarem à Justiça.
A costureira A. P. conta que não nasceu em uma família de testemunhas de Jeová, mas pregadores da religião bateram em sua porta diversas vezes quando ela era uma criança. “Meu pai tinha acabado de morrer e minha mãe tinha muitos filhos para criar, ela estava muito vulnerável emocionalmente”, diz ela. A.P. e sua família passaram a frequentar a igreja e a menina era totalmente engajada. Ainda jovem, ficou noiva de um homem da comunidade religiosa.
A costureira diz que sofreu violência por anos em seu casamento. Ela relata que seu marido tentava forçá-la a fazer sexo quando ela não estava disposta e a espancava por ter sido recusado. “Tentei contar diversas vezes para os anciãos, eles diziam que eu deveria ser mais paciente. Isso porque eu era uma mulher que não abria a boca para questionar nada. Diziam que eu deveria dar ao meu marido o que lhe era devido”.
Foi durante uma dessas vezes, afirma, que ela descobriu o que era pedofilia. “Quando contei a um ancião o que ele havia feito com minha irmã, ele me perguntou ‘você sabe o que é isso? É pedofilia.’ Mas nunca, em nenhum momento, eles tomaram alguma atitude contra ele”, diz a costureira.
Aos 65 anos, a ex-testemunha de Jeová Débora conta que apenas há cinco anos é que conseguiu se abrir de verdade sobre os abusos sexuais que sofreu entre os oito e os 12 anos de idade nas mãos do cunhado, que era um ancião respeitado entre as testemunhas de Jeová. “Teve um impacto psicológico muito grande na minha vida toda”, diz ela, cuja família toda até hoje é adepta à organização religiosa.
“Aos finais de semana minha mãe costumava me mandar para a casa da minha irmã mais velha para ajudar nos cuidados com as crianças e também porque era a oportunidade para ter uma refeição melhor e uma boca a menos para comer em casa”, conta ela.
Às vezes sua irmã não podia ir às reuniões, então a menina era obrigada a ir com o cunhado. “No caminho de volta, já noite avançada e na escuridão das ruas, ele pegava minha mão e colocava no bolso para segurar o pênis dele, depois abria os botões das calças e mandava que eu segurasse”, relata. À noite, diz ela, o cunhado deitava na cama em que ela estava dormindo e tocava em suas partes íntimas.
“Por vezes sentia uma gosma em minhas mãos e no meu corpo. Eu não entendia o que era aquilo, achava que era vômito, mas para meu espanto de manhã a cama estava aparentemente limpa, eu não conseguia compreender”, conta Débora. Ela diz que tentou conversar com a mãe diversas vezes para contar o que acontecia, mas a mãe dizia que a menina estava mentindo, que “um ancião não faria uma coisa dessas” e a mandava “calar a boca”.





