Primavera da Lata, Carta Magna e fumaça

Depois do carnaval de 1987, milhares de brasileiros chegavam ao planalto central para fazer a Constituinte, a tal que seria escrita pelo povo, deputados, senadores etc. Depois de remendada, retalhada, virou a “Constituição Cidadã de 88”. Vi o cacique Raoni (quase nu nos seus 2 metros de altura) subir a rampa do Palácio com Ulisses Guimarães, o “pai” da nova Carta Magna. Em setembro daquele ano, enquanto parlamentares vendiam capítulos, parágrafos e incisos, nas praias de Paraty ouvia-se um brado “vo bate pa tu bate pra tua patota”. Em Trindade, pescadores esqueciam de suas redes, peixes e saiam das águas rindo à toa, agarrados a umas latas. “Baguio bom tá qui”, diziam.

Naqueles dias floridos, estranhas 18 latas “de leite” (algumas com rótulos de Milk), outras meio enferrujadas, estavam boiando nas praias de Maricá, Rio de Janeiro. Ai, o segredo dos hippies e trindadeiros foi encontrado e “caguetado” por outros pescadores. Em mais e mais praias, as ondas traziam as latas com 1,5 k de maconha cada. Prensada, tipo exportação, só caroços, camarões de THC. O “verão da lata” começou na primavera. “No final de agosto, a Polícia Federal do Rio recebeu um comunicado da Interpol dos EUA de que o navio Solana Star, que vinha da Austrália, estava no litoral carioca carregando 22 toneladas de maconha, que seriam depois repassadas para outros barcos com destino à Miami”, conta o jornalista Wilson Aquino no seu livro “Verão da Lata”.

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Esse tsunami de maconha foi responsável pelo boom de surfistas no Brasil, pela ascensão do reggae, das barracas nas praias, dos mochileiros, maconheiros, malucos beleza etc. Jovens do interior e do sertão também queriam ter uma prancha para surfar e, talvez, encontrar uma lata boiando. Entre a ditadura e a democracia, o presidente era o poeta bigodudo Sarney (dono do Maranhão). Havia um certo medo em encontrar uma lata na praia (ela poderia dar “cana” ou simplesmente estar vazia). Quinze mil latas foram desovadas do navio Solana Star, mas só duas mil foram registradas pela polícia.

Meia dúzia de marinheiros do Solana Star levaram o navio para ser consertado no cais do Rio. O Solana foi fabricado no Japão e pescou muito atum antes de ter bandeira do Panamá e virar barco de tráfico. Cinco marujos sumiram, deixaram o Brasil e só o cozinheiro americano Stephen Skelton foi preso. Condenado a 20 anos de prisão, foi solto um ano depois pelo STF, que considerou a quantidade de três mil quilos de maconha “coisa pouca para mantê-lo preso”. Treze mil latas desapareceram (será que foram engolidas pelas Jubartes?). Tem gente até hoje garimpando os costões do Rio e de São Paulo em busca de uma delas. Só sei que Tete, uma amiga, dizia que tinha uma, vazia é claro, que guardou por um tempo, sei lá onde, e que a marijuana prensada havia sido queimada, é claro. Vazia, hoje valeria uma grana, mas ela nem se lembra mais onde escondeu a lata.

Há 28 anos, Verão da Lata trouxe 22 toneladas de maconha flutuando ...

Galdino Mesquita

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