Subserviência, inquietação e outras coisas

Hoje foi um dia atípico. Uma amiga perguntou ao me ligar se estava gripado ou era rinite. Eu disse que era rinite. Mas estava chorando. E não era só um choro. Estava, também, evitando chorar, fingir que está tudo bem. Quem diria, estava adiando a tristeza. Tenho postado fotos sorrindo, fotos com depoimentos de quem comprou meu livro Oceano de Sentimentos, uau, olha só, ela gostou; demonstrando uma vida ativa, que é o quase todo mundo faz nas redes sociais, mas a gente sabe que pouca coisa tem trazido alegria diante de tudo que está acontecendo.  

Neste isolamento interno e externo, minha oscilação de humor perambula a todo estante. Às vezes, me pego avariado desconhecendo meus próprios comportamentos. É angustiante, porque os pensamentos não cessam: onde tudo isso vai parar? Quando conviver não será mais tão perigoso?  

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Reparto esse sentimento com você, porque a vida não é só as alegrias que comentamos aqui ou acolá. Pelo contrário, no buraco da fechadura de cada um há algo que aflige. De uma sensibilidade que me é característica, tenho que admitir: estou emocionalmente abalado e aflito. A ideia não é desanimar ninguém, mas expor o outro lado que temos que abrigar dentro de nós. A tristeza genuína também merece espaço. E precisamos enxergá-la.  

E diante desse caos todo, às vezes também dá uma alegria pôr me perceber inteiro. De perceber o vento tocar o rosto e ficar despido diante das máscaras que nos cercam. Como disse, é caótico.  

No entanto, na inércia de um dia desses fui rever algumas fotos. Deparei-me com uma que havia tirado do pôr do sol na praia de Copacabana, Rio de Janeiro. É um retrato do que fui ontem. E quem diria que algumas horas depois eu embarcaria num choro e numa imensidão que havia adiado por tanto tempo. Eu adiava aquele encontro comigo mesmo porque temia a vulnerabilidade que me alcançaria no depois. Tudo veio à tona. Eu chorava de uma dor que havia abafado e que ali retornava. Eu chorava porque não sabia mais o que fazer com a sobriedade. Porque havia perdido o meu próprio colo. Eu chorava porque percebi naquele instante que havia me doado de tal maneira que já não reconhecia o meu próprio eu. O tom da minha voz. O meu raciocínio ilógico, incerto, imprevisto e transitório. Eu chorava de uma alegria que só reconheceria depois. Eu chorava de um passado que havia debochado. De uma parte de mim que hoje desconheço. Eu chorei porque é o que fazem aqueles que nasceram com uma sensibilidade exacerbada. Transbordam. Já não sabia a diferença entre as ondas e o oceano que me habitava. Eu chorei de uma melancólica que me traz estranheza até agora enquanto as palavras tomam conta dos meus dedos.  

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É engraçado como as semelhanças dos sentimentos se repetem. E desde então não fui mais o mesmo. Passei a respeitar o que levo no intrínseco. A ouvir mais do que falar, a colocar uma música quando parece que o dia se transforma em nevada. Passei a me cobrir com lençóis e cobertores. A respirar fundo. A vencer o cansaço de todos os dias.  

Mas como bem escreveu Cora Coralina certa vez: todos os dias devemos aprender uma palavra nova. É o que tenho feito. Nesse hiato que é atravessar os dias, penso que aprendi avançar e aceitar essa inquietação que me toma por ora. Ah, na companhia dos livros também aprendi uma palavra nova: subserviência. É o que nos restou agora.  

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