Maria da Glória em família. Glorinha entre os amigos. Ipê Roxo para todos. Assim era Glorinha na flor de seus 17 anos, estudante do curso colegial (hoje seria Ensino Mèdio) com notas regulares, e conhecida em toda a escola por usar saia curta demais para o gosto das beatas. E ela não estava nem aí. Não usava sutiã e dizia-se, nem calcinha. Em casa uma coisa, na rua outra bem diferente.
Naqueles anos, a diversão da chamada juventude rebelde era o cinema – havia cinco naquela cidade – ou os bailinhos na garagem, chamados de brincadeiras dançantes. Havia até uma espécie de acordo não escrito: bailinhos no sábado, dia em que casais comprometidos, famílias inteiras até, iam ao cinema. No domingo, cinema pra molecada, onde predominava a bagunça.
Glorinha não perdia o fim de semana. No sábado, entregava-se ao esfrega-esfrega com os bonitões que sabiam dançar. No domingo, escolhia outro bonitão para sentar-se ao seu lado. Glorinha não dava pra ninguém. Beijava, deixava que lhe passasem as mãos nas pernas e nos seios e tocava uma punheta para o felizardo na noite. E todo mundo tirava sua casquinha.
Acontece que na época surgiu uma teoria, dessas de almanaque, de que a casca do ipê-roxo curava praticamente todos os males. Pra aumentar a lenda, teve médico que foi à televisão falar das vantagens do chá com com casca de ipê-roxo. Velhas senhoras garantiam que após tomar o chá não sentiam mais as dores do velho reumatismo. Até o gordo Chicão garantia que o chá havia curado sua impotência.
A moda pegou, e não demorou para que Juca, companheiro de classe de Glorinha, lhe desse o apelido: já que todo mundo tirava uma casquinha com ela, nada melhor que ipê-roxo. O apelido pegou. Ninguém mais se referia a ela como Glorinha. Era Ipê-Roxo. Na melhor das hipóteses, Glorinha Ipê-Roxo. E ela tinha lá suas regalias. No cinema não precisava pagar ingresso. Sempre havia alguém disposto a bancar a entrada na esperança de ganhar uns afagos. Na escola, Glorinha trocava chocolate por uma punheta no banheiro.
Até que um dia a prefeitura resolveu começar uma obra e contratou uma construtora. Vieram os engenheiros, os chefes, os peões. Peão ficava num alojamento feito de madeira, com beliches e refeitório. Chefes e engenheiros ocuparam um hotel que já era mal visto. E num domingo de cinema, um dos engenheiros, o Samuel, se encantou com a loirice de Glorinha, sem conhecer a história. Investiu na mocinha. Propôs até lhe ensinar matemática, matéria que não era íntima de Glorinha. E os encontros começaram.
No começo era na praça. Semanas depois, encontrava-se no fim de semana num restaurante, tomavam chopp e cada um dia para o seu lado. Mais algumas semanas e Glorinha já repartia a cama com o engenheiro no seu hotel. Dizia à mãe que iria dormir na casa de uma amiga. Os antigos amigos sentiram sua falta. Ela, nessa altura, dava total preferência ao engenheiro, que até falava em casamento.
Meses depois, a construtora transferiu o engenheiro para uma cidade distante. Glorinha ficou na mão. Pra piorar as coisas, descobriu que estava grávida. Fez o teste numa farmácia de uma cidade vizinha. Entrou em desespero. Procurou o engenheiro, mas não conseguia encontrá-lo. Foi ao alojamento, falou com seus amigos, e nada.
A barriga começou a aparecer e aí não teve jeito. Todo mundo soube da gravidez de Glorinha, que quase não saía mais de casa. O pai queria colocá-la pra fora de casa, mas a mãe impediu. Pra mostrar um pouco de remorso, passou a ir às missas no domingo de manhã, junto com a mãe e uma irmã mais nova. Mas os comentários eram de matar. Até que nasceu a criança. A cara do engenheiro, afirmavam as beatas. Só faltou a criança ter nascido com bigode pra ficar igual ao pai.
Com criança pequena, foi aí que ela não saiu mais de casa. Vez ou outra ia buscar leite e pão na padaria, e aí notava os olhares desconfiados das fofoqueiras. Até o padeiro arriscou uma cantada. Glorinha deixou a escola no último ano do Colegial. Precisou ir trabalhar como doméstica, emprego arrajnado pela mãe com uma conhecida, cujo marido era gerente do Banco do Brasil. E ganhava bem.
No dia da formatura de sua classe, após o Hino Nacional e os discursos de costume, a rapaziada lembrou que Glorinha fazia falta. E Juca, sarcástico como sempre, teve uma explicação para o destino da mocinha: se ela tivesse ficado só na punheta, não teria engravidado e teria continuado sendo a alegria dos amigos. Juca chegou a dizer que ela era burra, e seus comentários chegaram ao ouvido de Glorinha.
Foi então que ela planejou sua vingança. Convenceu a mãe de ficar com o filho num fim de semana e resolveu sair. Foi ao bailinho na casa da Cida, dois quarteirões distante de sua casa. Sua chegada surpreendeu todo mundo. Foi então que Glorinha parou a música, e no silêncio que se seguiu, passou a falar do tamanho do dote de cada um dos presentes. Feito o discurso, arrematou: De pau eu entendo!





