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quinta-feira, 20 agosto, 2026

Estamos todos com PCRs (Possíveis Crises de Recalques)

Onze e 45 de uma noite de lua cheia, mas poderia ser quarto minguante ou nova, pouco importa. A janela semicerrada do prédio do Centro da Cidade do Porto, revela que as horas a seguir serão de gritos e gemidos para alguns vizinhos mais afoitos ou, de desespero e recalques para quem, talvez, daria tudo para estar confinado entre aquelas quatro paredes.

Aliás, estar confinado foi o que mais fizemos nesses quase dois anos. Para uns poucos privilegiados, foi um tempo de melhorar o que deveria fazer parte da nossa rotina. Para a grande maioria, porém, se tornou o motivo e a razão que faltava para a separação, o distanciamento e até o divórcio. Mas este é assunto para outro artigo. 

Neste percurso da quarentena, evitamos ao máximo a contaminação por este vírus fatal. Estamos em busca da carta de alforria (vacina), mas se for para falar de sexo e sermos verdadeiros, estamos todos com PCRs (Possíveis Crises de Recalques).

Mas porque?

Existe uma explicação científica para este desejo escondido. O psiquiatra especializado em sexualidade Carlos Eduardo Carrion afirma que muitas pessoas confundem o pensar, o desejar e o querer com o fazer. 

Daí o pânico de alguma coisa expressada ao exagero te incomodar tanto. Elas temem que o imaginário – do que poderia estar acontecendo com o seu vizinho – as induza a fazer algo. Como consequência, passam a rejeitar e atacar.  

De celebridades a campanhas publicitárias, passando por formadores de opinião e amigos, tudo que o levar a pensar em temas de cunho sexual ou só de imaginar que pessoas próximas pensem, já nos fazem agir como PCR.

Uma linha de pesquisa desenvolvida pelo Centro de Estudos Psicanalíticos, em São Paulo, vai além: revela que não são poucas as pessoas que, ao tentar abafar fantasias e conflitos íntimos, só intensificam na visão do outro aquilo que não querem enxergar em si mesmas.  

É a chamada projeção: um processo inconsciente no qual nos livramos daquilo que não conseguimos lidar através do julgamento do outro. Como? Criticando, condenando e xingando a vizinha do 409 que tem coragem de fazer sexo barulhento. 

O desejo da vizinha despeitada sempre vai ficar ali adormecida. Mas ela pode tecer comentários indiscretos que aliviam seus conflitos internos. Já o discurso de ódio é mais uma ferramenta para manter o controle do próprio desejo.  

E o que dizer da inveja? Sim, também é vista perambulando a cada performance do casal fogoso. É da USP (Universidade de São Paulo) que vem um estudo mostrando que a sexualidade ainda gera certa estranheza quando sai do âmbito das ‘quatro paredes’.

Muitos se importam com a sexualidade alheia por não temerem olhar a própria. A inveja é daquele que pode viver plenamente, mesmo que a duras penas sua sexualidade, sendo feliz como é. 

Enfim, sempre houve muita fantasia sobre o que há escondido. Só que aquilo que vai surgindo também precisa de um tempo para ser acomodado em nosso imaginário e em nossa vida. Como o olho que se acostuma com a claridade, após muito tempo no escuro.   

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