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quinta-feira, 13 agosto, 2026

Com medo de ser estuprada, jovem processa 99

Após ficar ferida por pular de um carro em movimento, uma jovem de 22 anos entrou na Justiça de São Paulo contra a empresa 99 e pediu indenização de R$ 100 mil vinculando o ocorrido ao aplicativo. 

Ana (nome fictício, a pedido da entrevistada) afirma que saiu do veículo por medo de sofrer algum tipo de violência depois que o motorista não parou no destino final indicado por ela no app.

Ao cair no asfalto, a jovem fraturou o pulso da mão esquerda e teve escoriações em diversas partes do corpo. A amiga Maria (nome também fictício), de 19 anos, que estava com Ana no carro, bateu a cabeça no chão, teve traumatismo craniano e ficou inconsciente.

“Não lembro de nada depois que eu saltei”, contou. Ela ficou 12 dias em coma e só deixou o hospital quase um mês após o incidente. O processo, iniciado em junho deste ano, é movido apenas por Ana.

De acordo com a ação judicial, o motorista João (nome fictício), 25 anos, relatou à 99 que “ao se aproximar do ponto de desembarque avistou um homem armado e notou que poderia se tratar de uma emboscada”, por isso saiu rapidamente do local”. 

Em nota, a 99 lamentou “profundamente o ocorrido com a passageira” e afirmou que o motorista foi banido da plataforma, mas “manifestos adicionais ocorrerão somente nos atos do processo”.

No processo, a empresa alega que é uma empresa de tecnologia, e não de serviço de transporte, que não detém frota de veículos ou motoristas contratados, por isso não poderia ser responsabilizada por ato praticado por usuários cadastrados, sejam passageiros ou motoristas. Argumenta ainda que apenas conecta as partes e é “parte totalmente ilegítima”.

A 99 pede sua remoção do processo e a inclusão do motorista, dizendo que não poderia ser considerada uma eventual responsabilidade solidária pois o passageiro “não efetua nenhum tipo de pagamento à 99 pela utilização do aplicativo”.

Essa não é a primeira vez que empresas que oferecem serviços de transporte particular tentam se isentar na Justiça da responsabilidade em casos de assédio, estupro e outros tipos de violência ocorridas durante uma viagem, mas este ainda é um terreno incerto que depende muito da avaliação do juiz.

Que viagem

Envolvendo duas jovens e o motorista, a viagem aconteceu no final da noite de 31 de janeiro deste ano. As amigas chamaram um carro pelo aplicativo da 99 em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, para ir à casa de um amigo a mais de 20 km de distância, em Santana do Parnaíba, também na região metropolitana.

Maria conta que a viagem começou com o motorista não encontrando o endereço onde elas estavam. “Ele subiu e desceu a rua umas quatro vezes”, diz.

Durante o percurso, as duas disseram que o condutor passou a fazer perguntas sobre a idade que tinham e o que levavam na mochila. “Expliquei que era um narguilé, e ele disse: ‘pensei que fosse uma arma'”, afirmou Maria. “Ele ficava olhando para a gente a toda hora, ficou fazendo muitas perguntas, algumas estranhas, perguntou se acreditávamos em lendas urbanas”, acrescentou Ana, destacando que o clima nesse momento da viagem já “estava tenso”.

O trajeto durou pouco mais de 30 minutos. Ao se aproximar do destino final, o motorista chegou a reduzir a velocidade, mas acelerou em seguida, contam. “A gente falou: ‘moço, é aqui’. Mas ele continuou acelerando e não falava nada”, diz Ana.

“Eu fiquei com medo. No final da rua, há uma região de mata. Quando ele não parou, eu achei que ele ia nos estuprar e matar”, completou. “Ela falou para eu pular e pulou primeiro. Só que eu estava em pânico, demorei um tempinho para saltar do carro, já que estava em alta velocidade.”

Procurado pela reportagem, até o fechamento da edição, João não respondeu à reportagem.  No primeiro contato, disse por mensagem que poderia falar “mais tarde”, mas parou de responder e ignorou todos os contatos feitos nos dias seguintes.

No processo o condutor não foi ouvido. A 99 tentou, mas o juiz indeferiu o pedido. A companhia compartilhou na ação o que o condutor narrou após o incidente.

(Fonte: UOL)

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