Na semana passada, a Polícia Federal parou de emitir passaportes. Culpa da máquina que faz isso, que quebrou e estava parada ainda na sexta-feira. Por causa disso, quase 200 mil pessoas estão na fila esperando pelo passaporte. Conclusão: tem muita gente viajando, mesmo se levando em conta que chegamos ao período de férias escolares. Segunda conclusão: um serviço tão importante como esse tem uma única máquina.
Qualquer dono de empresa sempre tem duas máquinas para fazer determinado serviço, prevendo que a falha é possível e previsível. Até donas de casa mais precavidas têm um plano B quando um eletrodoméstico encrenca e não serve mais. Mas o glorioso Ministério da Justiça tem uma única máquina para emitir passaportes. Única.
Como de praxe, ninguém será responsabilizado por nada. Se alguém perdeu o embarque por falta de passaporte, pode espernear à vontade – não conseguirá indenização alguma. Se alguém perdeu negócio no Exterior por falta do mesmo documento, vai ficar por isso. Ou seja, quem manda tem o direito de errar. Pelo menos é o que parece.
Vamos a um exemplo mais cabeludo, a transposição do Rio São Francisco. O que se pretende é fazer um canal, a partir da parte caudalosa do rio, para levar água a regiões de seca no Nordeste. Desde que o mundo é mundo, rios correm em leito de terra, pedras e areia. Na criação do mundo não foi feito nenhum rio de concreto – e Deus sabia o que estava fazendo.
Mas aqui erraram feio. Erraram em termos. Encontraram mais uma forma de desviar dinheiro público. O canal, que já era pra estar pronto, foi todo concretado. Como tudo está abandonado, o que foi feito está perdido. Jogaram rios de dinheiro pelo ralo, e nada acontece, ninguém é responsabilizado, ninguém devolve dinheiro.
Bastaria que alguns tratores abrissem o canal. O concreto não era preciso, mas sem concreto, sem grandes empreiteiras na história, não há como roubar. Não há como pedir comissão ao tratorista ou ao dono do caminhão que transporta a terra retirada. É coisa miúda, de pouco lucro e zero de propina.
Em Mato Grosso, há um aeroporto construído para a Copa do Mundo que está praticamente abandonado. As empresas aéreas não o usam por falta de passageiros. O mato está invadindo a pista, e tornaram-se comuns passeio de animais selvagens pela mesma pista. Quem mandou construir esse aeroporto deve estar agora rindo e contando o dinheiro desviado. Não vai acontecer absolutamente nada.
Logo tudo estará no esquecimento. Os jornais terão outros assuntos para se ocupar (até unha encravada de jogador de futebol merece notícia), e nossos ilustres governantes anunciarão outras novidades. Certamente inúteis.
E essas coisas são as que chegam ao conhecimento público. Imagina-se o que deva acontecer de fato, o que fica em segredo (alguém lembrou dos cartões corporativos?), escondido da imprensa. É assim que usam nosso dinheiro. É assim que cumprem a promessa de trabalhar pelo povo. Calma, logo eles estarão pedindo seu voto.





