Suponha que seu relacionamento subiu o telhado e você vem tentando resolver seus problemas a dois com terapia de casal. No final das contas, quer saber se o esforço vai valer a pena e as coisas vão ou não melhorar?
A recomendação é um tanto quanto óbvia: pare por um segundo e escute seu parceiro. Afinal, quando falamos um com o outro, nossas vozes contêm todo tipo de informação que pode revelar a resposta. Inflexões sutis no tom, as pausas entre as frases, o volume em que você fala – tudo isso transmite sinais ocultos sobre como você realmente se sente.
Muito disso nós aprendemos intuitivamente e usamos essas informações para ajustar o significado de nossas palavras. Pense na diferença entre essas questões: essa mudança de ênfase é uma das formas mais óbvias de dar significado à nossa fala. Mas há muito mais camadas que adicionamos sem perceber.
Há uma maneira de extrair essa informação oculta do nosso discurso. Os pesquisadores até desenvolveram inteligência artificial que pode usar essas informações para prever o futuro dos relacionamentos de casais. A tecnologia já é mais precisa em aspectos com esse do que os terapeutas profissionais.
Terapeutas X algoritmos
Em um estudo realizado recentemente, pesquisadores monitoraram 134 casais com dificuldades em seus relacionamentos. Ao longo de dois anos, os casais tiveram duas sessões de terapia de 10 minutos. Cada cônjuge escolheu um tópico sobre seu relacionamento que considerava importante e discutiu-os juntos. Os pesquisadores também coletaram dados sobre se os relacionamentos dos casais melhoraram ou pioraram e se ainda estavam juntos dois anos depois.
Terapeutas treinados assistiram a vídeos das gravações. Ao avaliar a maneira como os casais conversavam entre si, o que diziam e sua aparência enquanto falavam, os terapeutas fizeram uma avaliação psicológica sobre o provável resultado de seu relacionamento.
Os pesquisadores também treinaram um algoritmo para analisar a fala dos casais. Pesquisas anteriores forneceram à equipe algumas pistas de que certos recursos provavelmente estavam envolvidos na comunicação humana, como a entonação, a duração da fala e como os indivíduos se revezavam para falar. O trabalho do algoritmo era calcular exatamente como esses recursos estavam ligados ao vigor do relacionamento.
O algoritmo foi puramente baseado nas gravações de som, sem considerar informações visuais dos vídeos. Ele também ignorou o conteúdo de suas conversas – as próprias palavras. Em vez disso, o algoritmo detectou recursos como cadência, volume e quanto tempo cada participante falava.
Surpreendentemente, o algoritmo também captou características da fala além da percepção humana. Esses recursos são quase impossíveis de descrever porque normalmente não temos consciência deles – como a inclinação espectral, uma função matemática complexa da fala.
Medindo a discussão
Thoedora Chaspari, engenheira de computação da Texas A & M University, nos Estados Unidos, vem desenvolvendo um programa de inteligência artificial que pode prever quando os conflitos aumentam em um relacionamento. Chaspari e seus colegas coletaram dados de sensores não intrusivos – como uma pulseira de fitness, que 34 casais usaram por um dia.
Os sensores medem o suor, frequência cardíaca e os dados de voz, incluindo o tom de voz, mas também analisam o conteúdo do que os casais disseram – se usaram palavras positivas ou negativas. Um total de 19 dos casais experimentou algum nível de conflito durante o dia em que usaram os sensores.
Chaspari e seus colegas usaram o aprendizado de máquina para treinar um algoritmo para entender os padrões associados aos argumentos que os casais relataram ter. Depois de receber treinamento sobre esses dados, o algoritmo conseguiu detectar conflitos em outros casais usando apenas os dados dos sensores, com uma precisão de 79,3%.
Agora, a equipe está desenvolvendo algoritmos preditivos que espera usar para detectar sinais de uma possível briga e alertar o casal antes de a briga ocorrer. Ao monitorar seus níveis de transpiração, batimentos cardíacos e a maneira como você está falando, o algoritmo faria um cálculo da probabilidade de enfrentar um atrito com seu parceiro.
A maneira como ele funciona é a seguinte: você teve uma péssima jornada no trabalho, saiu uma reunião estressante e está a caminho de casa. O dia do seu parceiro foi igualmente difícil. Ao monitorar os dois níveis de transpiração, os batimentos cardíacos e o modo como você vem falando nas últimas horas, o algoritmo faria um cálculo da probabilidade de uma briga entre vocês acontecer.
Isso pode ser feito simplesmente enviando uma mensagem aos casais antes que uma discussão venha à tona, diz Adela Timmons, psicóloga do projeto baseado no Centro de Psicologia Clínica e Quantitativa para Crianças e Famílias da Universidade Internacional da Flórida, nos Estados Unidos.





