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sábado, 5 setembro, 2026

Mãe busca por diagnóstico após perder 20kg durante a gestação

Um dos maiores sonhos da professora Michelle Munhoz, de 32 anos, era o de se tornar mãe. Quando descobriu que estava grávida, ficou imensamente feliz. Os meses de gestação, porém, foram difíceis e de intenso sofrimento.

Sentia constantes dores pelo corpo, falta de ar e dificuldades para andar. Passava os dias deitada e sem ânimo. Ela relata ter perdido 20 quilos ao longo da gestação. A professora, que mora em Arapongas (PR), procurou diversos médicos para descobrir a origem dos problemas de saúde. “Eles afirmavam que tudo isso tinha a ver com a gravidez”, diz ela à BBC News Brasil.

Os especialistas que atenderam a professora diziam que os problemas enfrentados por ela durante a gestação eram consequências de uma depressão e de enjoos frequentes. “Eu pensei algumas vezes que fosse algo mais grave, mas acabava acreditando no que os médicos diziam.”

O habitual é que as mulheres ganhem peso durante a gravidez, principalmente após os três primeiros meses. O cálculo para definir se uma gestante ganhou peso adequado é feito com base no Índice de Massa Corporal (IMC) — equação que leva em conta o peso e a altura da pessoa.

“O ganho é diferente para cada gestante. Se uma está com o IMC adequado (IMC 18 a 25), ela pode ganhar de 11,5 a 16 quilos. Se ela estiver com baixo peso (IMC menor que 18) poderá ganhar até 18 quilos. Entretanto, as gestantes com sobrepeso ou obesas terão que seguir orientação alimentar, pois o ganho de peso é bem menor”, explica Silvana Quintana, professora do departamento de ginecologia e obstetrícia da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto.

Durante o primeiro trimestre da gestação, pode haver casos em que as gestantes percam peso, pois é uma fase em que estão com frequentes náuseas e vômitos, características relacionadas aos elevados níveis hormonais próprios da gravidez. Em geral, a perda de peso — que costuma corresponder, nos níveis mais extremos, a 10% do peso pré-gravidez — cessa ao fim dos primeiros três meses.

“A assistência pré-natal é fundamental para o cuidado da saúde materna e fetal. A cada consulta, a gestante é pesada e é avaliado se o ganho de peso está adequado ou não. No caso de perda de peso, o médico analisa se há motivo para essa diminuição, como vômitos, diarreia, uso de medicamentos que levam a intolerância gástrica etc.”, diz Quintana.

Michelle conta que fez o pré-natal adequado e recebia acompanhamento médico. “Todos os problemas que eu tive foram associados pelos médicos à gravidez.”

O filho da professora nasceu prematuro. Michelle estava completamente fraca e não conseguia segurar o recém-nascido.

Mais de um mês depois, foi a um novo médico, que finalmente a diagnosticou com linfoma de Hodgkin, câncer no sistema linfático, em estágio avançado. “Ele me disse que era um milagre eu e meu filho estarmos vivos.”

A gravidez

Desde meados de 2016, Michelle e o marido, o autônomo Jônatas Biacio, de 39 anos, tentavam ter um filho. As chances para que a professora conseguisse engravidar eram pequenas, em razão de duas doenças que ela possui no útero: endometriose profunda e adenomiose.

A endometriose é uma doença na qual o tecido que reveste o útero, conhecido como endométrio, cresce em outros locais do organismo, como ovários, bexiga ou intestino. Michelle foi diagnosticada com o nível mais grave da doença. Já a adenomiose ocorre quando o endométrio cresce nas fibras musculares da parede uterina.

A professora passou por duas cirurgias para cuidar da endometriose e fez tratamento com hormônio para induzir a ovulação. “Fiz esse tratamento por quatro meses. Muitos resultados deram negativo. Pensei em desistir. Mas em outubro de 2017, soube que estava grávida”, relata Michelle. “Não há sensação mais incrível. Não há palavras que consigam expressar o sentimento de alegria quando descobri a gestação.”

A gravidez de Michelle foi considerada de risco, por causa dos problemas no útero. “Desde o início, tive enjoo constante, que não passava. O médico disse que isso seria normal até o quarto mês. Além disso, eu não conseguia comer nada. Até o terceiro mês, emagreci normalmente, mas a partir do quarto passei a emagrecer muito”, relata.

Perda de peso e problemas de saúde

A frequente perda de peso preocupou Michelle. Os problemas de saúde se intensificaram. Ela passou a ter dificuldades para caminhar, respirar e precisou se afastar das salas de aula — ela é professora de sociologia, história e ciências sociais, na rede estadual do Paraná.

Para os médicos que a acompanhavam, poderia ser um caso de depressão profunda. “Me encaminharam a cardiologista, endocrinologista, nutricionista e hematologista. Eu fazia acompanhamento semanal. Os médicos me pediam exames de sangue e, quando chegavam os resultados, falavam que algo não estava normal, mas diziam que era por causa da gravidez.”

O filho da professora nasceu prematuro. Michelle estava completamente fraca e não conseguia segurar o recém-nascido.

Mais de um mês depois, foi a um novo médico, que finalmente a diagnosticou com linfoma de Hodgkin, câncer no sistema linfático, em estágio avançado. “Ele me disse que era um milagre eu e meu filho estarmos vivos.”

‘Não tinha forças para segurar o meu filho’

Um dos episódios mais difíceis para Michelle durante a gestação foi o chá de bebê do filho. Na comemoração, que reuniu amigos e familiares, ela conseguiu ficar em pé poucas vezes. “As pessoas estranhavam a minha aparência, porque eu estava muito mal. Não tinha forças”, relembra.

Cerca de duas semanas depois, Michelle passou mal em casa e sentiu dores intensas na barriga. No hospital, descobriu que deveria passar por uma cesárea às pressas, no sétimo mês de gestação. “O médico me disse que meu filho estava em sofrimento, porque eu estava perdendo muito líquido amniótico.”

O pequeno Samuel nasceu saudável, em 7 de maio de 2018. Por ser prematuro, foi encaminhado para uma incubadora, na UTI neonatal. Michelle diz que o parto do filho não foi um momento mágico, como ela esperava.

“Eu estava muito inquieta e nervosa, porque sabia que meu filho estava sofrendo e seria um parto complicado. Além disso, eu não conseguia respirar direito”, diz. Ela descobriria, posteriormente, que a dificuldade para respirar era causada por líquido que havia em seu pulmão, uma das consequências do linfoma.

A fraqueza de Michelle a impediu de segurar o próprio filho depois do parto. “Não tinha forças. As pessoas achavam que era depressão pós-parto, ou que eu era um monstro, mas era porque eu realmente não aguentava ele. Foi muito difícil lidar com essa situação”, detalha.

Ela passou sete dias internada após a cesárea. Nesse período, viu o filho poucas vezes. “Passava o dia dormindo. Quando via o meu filho na UTI, não conseguia segurá-lo”, relata a professora. Por conta dos problemas de saúde, ela não conseguiu amamentar o recém-nascido.

Samuel passou 15 dias internado, mas não teve nenhum problema de saúde. “Ele não precisou, em nenhum momento, de respirador. A médica falou que o meu filho foi um guerreiro”, diz Michelle.

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