publicidadespot_img
22.2 C
Jundiaí
terça-feira, 14 abril, 2026

Sem lugar para os mortos, surge proposta para cemitério

Não há mais onde colocar tantos mortos na cidade. Os dois cemitérios publicos estão lotados
A situação atual para familiares dos mortos em Jundiaí é a seguinte: os dois cemitérios públicos (Desterro e Montenegro) estão lotados. O Cemitério dos Ipês, particular, tem vagas, mas custa caro (R$ 23.500 o terreno) e um novo que está para sair, no Castanho, pode custar ainda mais.
No meio desse problema há uma proposta – a de se implantar um cemitério ecologicamente correto, econômico, e no centro da cidade. Seria ao lado do atual Velório, com vários andares, capela. Nesse caso, desapareceria o atual estacionamento, explorado pelos vicentinos. Mas a nova construção dobraria o número de vagas.
É um cemitério vertical, mas com um projeto tecnológico avançado, como explica Valdir Ferrão, dono da Valfer Tecnologia e responsável pelo projeto, já apresentado à prefeitura de Jundiaí. “Não é simplesmente colocar os mortos em gavetas como se faz hoje nos sepultamentos”, diz ele.
O projeto prevê que todas as gavetas sejam ligadas a equipamentos que vão injetar oxigênio, manter uma mínima pressão, e extrair de lá todos os vapores (incluindo o ácido sulfídrico). Depois, o mesmo equipamento fará a lavagem dos gases, que se tornarão respiráveis e serão lançados na atmosfera, sem qualquer prejuízo na qualidade do ar.
Explicando: o corpo, que tem quase 80% de água em sua composição, após a morte se liquefaz; esse líquido produz vapores, incluindo o ácido sulfídrico, responsável pelo mau cheiro de cadáveres em decomposição.
14-valdirNa forma atual (sepultamento), o processo de decomposição, até que só fiquem os ossos, pode demorar dois anos. No método proposto por Valdir, apenas um ano. Com o sepultamento, há outros problemas.
“Como o líquido vaza das gavetas, se infiltra na terra, e esse necro-chorume pode contaminar os lençóis freáticos – explica ele. Sabemos que o vírus da Aids, estando no corpo de alguém que morreu, também morre e fica por isso. Mas esse chorume pode, contaminando o lençol freático, transmitir a hepatite, cujo vírus é resistente”.
O ácido formado pela pressão dentro das gavetas, quando vaza, produz outro fenômeno, chamado de fogo flato – ao sair, o sulfídrico se inflama sozinho. Daí muita gente ver fantasmas em cemitérios.
O método tradicional é o anaeróbico. Sem oxigênio, as bactérias, vermes e outros organismos presentes no corpo humano em vida, se alimentam do que está sendo decomposto. Com o fim da decomposição, também morrem.
O proposto por Valdir é o aeróbico – uso de oxigênio para acelerar a liquefação, extração e lavagem dos gases, sem prejuízo ao ambiente e sem risco de contaminação de águas. “Na lavagem dos gases há uma porcentagem de soda cáustica, diz Valdir, e quando em contato com o ácido sulfídrico, transforma-se em sulfato de sódio, nada mais”.
Cemitérios assim já existem aos montes no Japão, que inclusive tem, nas gavetas, sensor de movimentos – se alguém é enterrado vivo, imediatamente é socorrido ao menor movimento. No caso de Jundiaí, cada lóculo (é o nome que se dá à gaveta) custaria entre 1.000 e 1.500 reais.
E poderia também ser alugado. Se uma família quiser alugar o espaço por três anos – é um exemplo – após esse tempo os ossos são retirados e depositados em lugar próprio, o ossário. Conchas acaba de fechar essa parceria. Santo André e Santa Cruz do Sul já têm esse tipo de cemitério. Mais uma dezena de cidades brasileiras analisam o mesmo projeto.
Para levar adiante tal projeto, Valdir acredita que o custo não cheque aos dez milhões de reais. A construção seria em forma de pirâmide (capacidade de sete mil lóculos) ou quadrada (com dez mil lóculos). Também poderia ser construído aos poucos, ampliando sua capacidade conforme a necessidade.
E as idéias vão mais longe. Valdir acredita que a longo prazo, os túmulos hoje existentes no Cemitério Nossa Senhora do Desterro (Centro) poderiam ser transferidos para o novo cemitério. No último andar haveria um museu, preservando esculturas e peças já centenárias existentes no atual.
Com isso, em cinquenta anos, haveria uma enorme área limpa, onde poderia ser feito um parque. “Onde está o Central Park, em Nova Iorque, havia um cemitério, por que não aqui?” questiona ele.
Enterrar é costume de 4 mil anos ou mais
Alguns povos orientais, baseados em suas crenças, queimam seus mortos. Na Índia essa prática é corriqueira. Mas o costume de enterrar os mortos começou há mais ou menos quatro mil anos, quando o homem, que vivia em tribos, passou a se fixar nos lugares, deixando de ser nômade.
Quando nômade, abandonava os corpos para a decomposição biológica ou para ser devorado por animais. Quando se fixou, passou a enterrá-los em grutas. Séculos depois, na era do Cristianismo, influenciados pela Igreja Católica, os homens passaram a enterrar os mortos dentro das igrejas (hoje esse costume é reservado somente a bispos).
Com o passar do tempo, passou a construir cemitérios ao lado das igrejas, e finalmente, nas saídas das cidades. O costume perdura até os dias atuais, o que significa que é incalculável o quanto está contaminado o solo e o lençol freático.
Em tempos de crise de água, e pregação de um mundo de mais qualidade, a proposta de um cemitério nos moldes pregados por Ferrão é algo que merece ser levado a sério, seja por ser politicamente correto, seja pelo custo, infinitamente menor que o convencional.

Novo Dia
Novo Diahttps://novodia.digital/novodia
O Novo Dia Notícias é um dos maiores portais de conteúdo da região de Jundiaí. Faz parte do Grupo Novo Dia.

SUGESTÃO DE PAUTAS

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

PUBLICIDADEspot_img
publicidadespot_img
publicidadespot_img

Deixe uma resposta