Com dívidas que chegam a R$ 30 milhões, uma empresa tentando reerguer o clube e incutir um pouco de credibilidade, o Paulista Futebol Clube se prepara para disputar a Copinha e tentar continuar respirando – se ganhar, vai para a Copa do Brasil. E nos próximos sessenta dias o Novo Paulista põe na rua seu projeto de conseguir apoio da cidade.
Mas o velho Paulista não anda bem das pernas. Com 106 anos completados em maio – a festa aconteceu nos dois últimos finais de semana – nunca esteve numa situação tão ruim como a atual. Entre os torcedores circulam histórias e há a eterna busca de culpados por tudo o que não deu certo.
Torcedores são implacáveis. Ora apontam um ex-presidente ora um diretor. O público presente aos jogos é diminuto, e em nada lembra a época de estádio lotado com torcedores, charangas e bandeiras. A lembrança da Copa do Brasil de 2005 é constante, mas passado é passado.
Hoje o time disputa a série A-2 (segunda divisão) do Campeonato Paulista. No Campeonato Brasileiro, onde já esteve, foi sucessivamente rebaixado e hoje não está em nenhuma série – jocosamente, tornou-se um time fora de série. Neste ano, conseguiu se manter na série A-2, embora, durante o campeonato, viu a ameaça de ir para a série A-3 de perto.
Nesta semana, Luiz Roberto Raymundo, o Pitico, resolveu falar sobre o velho e o novo Paulista. Pitico está no Paulista há 33 anos, com alguns períodos de afastamento. Participou de diretorias como a de Josef Pfulg, viu a chegada e a decadência da Lousano, o ápice com a Parmalat e agora integra o Novo Paulista, grupo liderado pelo desembargador aposentado Márcio Franklin Nogueira. Mas é taxativo.
“O futebol é altamente deficitário, e o do interior é o que mais sofre com isso, diz Pitico. Se o Paulista não conseguir dinheiro nos próximos seis meses, pode passar o cadeado no portão. Não existem mais empresários abnegados, como o falecido Pfulg, que colocava dinheiro do bolso para manter o time”.
Pitico sabe também que entre os torcedores correm histórias de todos os tipos, e por isso resolveu esclarecer a saída de jogadores, de patrocinadores. E explica que muita coisa ruim aconteceu depois que passou a valer a Lei Pelé.
Casos de jogadores: “O goleiro Artur foi embora porque terminou o contrato, assim como o também goleiro Rafael Bracalli e do armador Eldinho. A Lei Pelé permite que um jogador formado na base tenha contrato de até três anos, a partir dos 16 de idade. Só que seis meses antes de terminar, o jogador pode fazer um pré-contrato com outro clube”, explica Pitico.
Com essa facilidade legal, jogadores que se destacam durante a formação, são assediados por empresários e diretores de outros clubes que ensinam como agir: enrolar e ganhar tempo, mas não renovar o contrato. Para garantir seus negócios, despejam dinheiro para a família desses jogadores-revelação. “O São Paulo é o clube que mais alicia jogadores”, afirma Pitico.
O jogador Nenê, um dos mais conhecidos dessa safra “exportada” pelo Paulista, é um dos casos em que o azar perseguiu o time. O Paulista vendeu mas não viu a cor do dinheiro. Processou, na Fifa, dois clubes espanhóis, o Las Palmas e o Alavez – e os dois faliram.
Há mais casos que geraram polêmica. O jogador Sodinha quebrou o contrato e o Paulista foi à Justiça contra ele – ganhou em primeira instância. Outro goleiro, Vitor, e um jogador de defesa que chegou à Seleção Brasileira, Réver, foram vendidos pelo Banco Fator, que era investidor do Paulista.
“É a coisa mais natural – explica Pitico – o banco ou a empresa colocar dinheiro, investir, e depois, com a venda do jogador, recuperar seu investimento. Outros casos, como dos jogadores Gabriel Leite (vendido ao Palmeiras) e Tabata, foram da diretoria passada, e eu não tenho conhecimento dos detalhes”.
E são os detalhes que perseguem as dúvidas dos torcedores. “O Eduardo Palhares, ex-presidente, nunca foi dono de passe de jogador”, afirma Pitico. E por que o Paulista mudou de nome? “É natural que a empresa que patrocina 100% do clube faça exigências e coloque seu nome, casos da Lousano e da Parmalat”, explica ele.
O caso da Parmalat é até curioso porque o time se tornou Etti. Acontece que a empresa era dona da marca Etti, comprada da antiga Paoletti, embora fosse mais conhecida pelo leite. Só que a maior concorrente da Parmalat era o Leite Paulista – e seria um tiro no pé associar o leite ao Paulista. Seria propaganda para o concorrente.
A Parmalat deixou saudade. Não faltam dinheiro e bons jogadores. “O título da Copa do Brasil de 2005 foi consequência do trabalho de base da Parmalat”, diz Pitico. Mesmo após deixar o clube com tudo em ordem, sem dívidas e sem processos trabalhistas, a Parmalat bancou o Paulista durante um ano.
Processos trabalhistas são outra cruz para o Paulista. Por causa deles, teve parte da cota de televisão, quando estava na série A-1, penhorada pela Justiça para pagamento de processos. Hoje ele nem tem ideia de quantos processos estão em andamento, mas sabe que são muitos.
Para resolver essas dores de cabeça, nem novembro passado foi lançado o projeto Novo Paulista, do qual Pitico faz parte. “Temos cinco agências de publicidade nos ajudando, e nos próximos sessenta dias vamos colocar na rua essas ideias e buscar apoio junto às indústrias e comércio. Vamos ver qual será a resposta da cidade nos próximos seis meses. Se não entrar dinheiro, o Paulista pode fechar suas portas”, diz Pitico.
Ele também garante que as contas do Paulista são transparentes, que não há nada esconder. Mas lamenta o acaso: “O país vinha bem nos últimos vinte anos, e agora, quando mais precisamos, vem a crise”.
O pessoal do Novo Paulista se espelha em exemplos como Chapecó (o time, Chapecoense, está na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, e a cidade catarinense é do tamanho de Jarinu), e de Eindhoven, na Holanda. Lá, a Philips liderou a formação do clube, uniu a cidade e fez do PSV (Philips Sport Vereniging – em português, Associação Esportiva Philips) um dos dez clubes mais ricos do mundo.
“Jundiaí está num polo econômico importante, com centenas de grandes indústrias e um comércio muito forte. O que o grupo pretende é unir a cidade e toda a região em volta do Paulista, para recuperar seu prestígio”, diz Pitico. As intenções são boas e louváveis, mas os próximos seis meses é que dirão que tipo de resposta o Paulista terá.
Foto: Luiz Roberto Raymundo, o Pitico: sem dinheiro, fecha as portas | FOTO JN





