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sábado, 24 outubro, 2026

Editorial: O martírio da classe média

Sob todos os aspectos a classe média é a que mais sofre, a que mais paga, e a mais penalizada em nosso país. Alguém pode dizer o contrário, mas só dizer. Os fatos mostram que a classe média, seja alta ou baixa, passa por martírios diários em todos os sentidos. Vejamos.
Dividindo-se o país em classes básicas (os ricos, os pobres e os médios), e sem levar em conta as possíveis subdivisões, a conta sobra para a classe média. Os mais abastados que a sugam, exercem poder e conseguem evitar pagar tudo o que deveriam em termos de impostos.
Os abaixo da classe média, que são favorecidos por programas sociais e uma vez neles, se perpetuam. Boa parte do que a classe média paga em forma de impostos acaba chegando às classes menos favorecidas, ora com Bolsa Família, ora com subsídios e tarifas sociais. Também sai da classe média a maior parte das doações para socorrer famílias ou cidades inteiras.
A classe média sofre também com um problema de intelecto. Normalmente com estudo suficiente para entender muita coisa, é agredida pela ignorância dos que não estudaram – e nem se preocupam em estudar – e com a petulância dos que, mesmo estando na chamada faixa dos pobres, conseguiram chegar a algum lugar.
Sofre ainda por entender situações e fatos, coisas ignoradas pela plebe. Mas não tem poder e dinheiro suficiente para se manter a distância dessa ignorância. É obrigado a conviver com essa coisa, com os chamados ignorantes felizes.
Não são esses, os ignorantes felizes, os chamados para pagar a conta. Não têm o que dar; ao contrário, só recebem. Os que estão acima não se mexem para amenizar (ou alguém ouviu algum deputado ou senador pregar diminuição nos seus salários?). A classe média abastece ambos, os de cima e os de baixo.
A questão da ignorância chega a doer. Manifesta-se nos miseráveis que fazem crediário para comprar uma camisa do time de futebol de seu coração; na compra de discos de músicas medíocres que certamente alegrarão churrascos e bebedeiras promovidos em puxadinhos, sem pensar num segundo sequer sobre a gravidade da situação.
Não é revolta. É só constatação de que os que estão acima estão conseguindo o que queriam – quanto mais ignorantes, melhor. Basta ver a qualidade do ensino. Basta ver como são tratados médios e baixos nos bancos, nas lojas, nas repartições públicas. E quando alguém resolve fazer valer seus direitos torna-se uma aberração, um mal educado, um barraqueiro.
O martírio não tem prazo para acabar. A maioria é cordeira, obediente, sem sangue quente suficiente para se revoltar, exigir, impor. A sociedade dos animais é bem mais justa e honesta. Tem outros valores, como força e competência, mas não é mesquinha nem exploradora. Muito menos ignorante.

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